Poucos temas geraram tanto debate na medicina nos últimos anos quanto a vitamina D. De um lado, estudos associando sua deficiência a uma lista crescente de condições: doenças autoimunes, diabetes, depressão, doenças cardiovasculares, maior suscetibilidade a infecções. Do outro, revisões sistemáticas questionando se a suplementação em larga escala produz os benefícios que a associação epidemiológica sugeria. No meio disso tudo, o paciente com um exame na mão e um médico dizendo para suplementar e outro dizendo que não precisa.
A vitamina D é, tecnicamente, um hormônio esteroide sintetizado principalmente pela pele em resposta à exposição solar. Sua forma ativa, o calcitriol, regula o metabolismo do cálcio e do fósforo e tem receptores em praticamente todos os tecidos do organismo. A deficiência grave causa raquitismo em crianças e osteomalácia em adultos. A insuficiência moderada, que é o quadro mais comum na população, tem impactos menos dramáticos e mais difíceis de isolar de outros fatores.
O ponto de corte para definir deficiência varia entre as diretrizes internacionais, o que já explica parte da confusão. A Endocrine Society considera insuficiente o nível abaixo de 20 ng/mL e deficiente abaixo de 12 ng/mL. Outras organizações trabalham com valores diferentes. No Brasil, a exposição solar é abundante em boa parte do território, mas hábitos de vida modernos, uso de protetor solar, rotinas predominantemente indoor e características individuais de metabolismo fazem da deficiência uma realidade mais comum do que se esperaria num país tropical.
A suplementação tem indicação clara em grupos específicos: idosos, pessoas com pouca exposição solar, pacientes com síndromes de má absorção e indivíduos com deficiência documentada. Para a população geral com níveis dentro da referência, a suplementação indiscriminada não demonstrou benefícios consistentes nos estudos mais robustos disponíveis.
O que o paciente pode fazer é medir, conversar com o médico sobre o resultado no contexto do próprio quadro clínico e tomar a decisão com informação. Vitamina D em excesso também tem toxicidade. Equilíbrio, aqui como em quase tudo na medicina, é o critério que importa.