CEO da Althera explica mudança de pacientes com doenças crônicas, que já não buscam apenas receita e retorno, mas suporte constante e uma jornada de cuidado que continue fora do consultório.
Durante décadas, a lógica dominante da saúde era o paciente marcar uma consulta, receber orientação médica, sair com uma prescrição e voltar apenas quando surge um novo problema ou quando chega a data do retorno. Esse modelo, porém, começa a perder espaço em áreas nas quais o tratamento não se resolve em uma conversa de consultório, mas no que acontece nos dias, semanas e meses seguintes. É nesse ponto que o acompanhamentoremoto contínuo passa a ganhar força e a transformar o futuro da saúde digital.
Em entrevista ao Portal Pulsar Brasil, Vander Valente, CEO e sócio fundador da Althera, plataforma de telemedicina voltada ao tratamento da obesidade, a mudança não significa o fim da consulta avulsa, mas está na nova expectativa do paciente. Acostumado a serviços que respondem rápido, guardam histórico e oferecem suporte quase em tempo real, o paciente já não aceita ficar sozinho entre uma consulta e outra quando lida com uma doença crônica. Confira:
Por que a consulta isolada deixou de ser suficiente para pacientes com doenças crônicas?
A consulta avulsa não está desaparecendo. O que mudou foi a referência do paciente: ele convive com serviços que respondem em minutos, lembram do que ele precisa e estão disponíveis quando ele tem a dúvida. A consulta resolve um momento; a doença crônica é um processo que segue acontecendo nos 364 dias em que ele não está no consultório.
O que explica essa mudança nas expectativas dos pacientes em relação ao cuidado em saúde?
O paciente não está pedindo mais consultas. Está pedindo continuidade entre elas. Esse deslocamento de expectativa ajuda a explicar por que plataformas de saúde como a Althera passaram a apostar mais em modelos capazes de acompanhar toda a jornada do paciente. A lógica faz ainda mais sentido em doenças crônicas, como obesidade, diabetes, hipertensão e transtornos de saúde mental, nas quais o sucesso do tratamento depende muito mais do comportamento sustentado no dia a dia do que de uma consulta isolada.

Por que a continuidade do acompanhamento é decisiva no tratamento da obesidade?
No tratamento da obesidade, essa diferença fica explícita. Nos estudos clínicos com semaglutida e tirzepatida, medicamentos da classe GLP-1, por exemplo, a permanência no tratamento supera 80% quando o paciente passa por visitas estruturadas, titulação protocolar e acompanhamento próximo. Já no mundo real, onde prevalece o modelo de consulta isolada, cerca de metade abandona o tratamento em até um ano. É a mesma molécula, o mesmo paciente. O que muda é o sistema em volta.
Quais fatores mais contribuem para o abandono do tratamento?
O abandono raramente acontece por um motivo complexo. Muitas vezes, o paciente desiste por enfrentar sozinho um efeito colateral previsível, por não entender o ritmo esperado do tratamento ou por não ter a quem recorrer quando surgem dúvidas entre uma consulta e outra. O erro mais caro é o paciente abandonar o tratamento por um motivo que tinha solução simples e ninguém estava lá para resolver.

Como a tecnologia tornou possível acompanhar pacientes em larga escala?
É justamente para preencher esse intervalo que a tecnologia passou a ocupar um papel central. Se antes acompanhar cada paciente de perto exigia uma operação cara e praticamente inviável em escala, hoje plataformas digitais conseguem identificar momentos críticos da jornada e direcionar a atenção humana para quem mais precisa. Na prática, isso significa saber se o paciente está na fase de adaptação da medicação, se deixou de registrar uma aplicação ou se abriu uma dúvida sobre efeitos adversos.
A tecnologia resolveu o problema que antes tornava o acompanhamento contínuo um luxo, o custo de estar presente.
Até onde a inteligência artificial pode atuar?
O objetivo nunca foi substituir o cuidado por software, mas usar a tecnologia para fazer o cuidado chegar onde antes não chegava. A automação apoiada por IA entra para garantir consistência, lembretes, organização da jornada e monitoramento de risco de abandono. O julgamento clínico continua sendo exclusivamente humano.
O princípio que aplico é simples: a automação cuida da consistência, o humano cuida do julgamento. A decisão clínica, a conversa que muda a confiança do paciente, o ajuste fino de uma conduta, isso é território humano (feito por um médico), e tem que continuar sendo.

Como o acompanhamento contínuo muda a forma de avaliar os resultados em saúde?
O acompanhamento frequente tende a melhorar a adesão ao tratamento. No caso da obesidade, as maiores causas de desistência são justamente o manejo inadequado de efeitos colaterais e a sensação de isolamento entre duas consultas curtas. Quando existe contato recorrente, esses pontos podem ser neutralizados antes de se transformarem em abandono. A adesão é uma decisão que o paciente refaz toda semana, não somente uma vez no início.
Na prática, isso também muda a forma de medir eficiência em saúde. Em vez de olhar apenas para a realização da consulta, plataformas de acompanhamento contínuo passam a monitorar indicadores como persistência no tratamento após seis ou 12 meses, percentual de pacientes que atingem a meta de perda de peso, tempo de resposta a dúvidas e taxa de abandono durante a fase mais crítica da terapia.
O modelo de consulta isolada nem coleta esses dados, porque perde o paciente de vista assim que ele sai da sala.
Quais especialidades devem ser contempladas por essa transformação nos próximos anos?
Embora a obesidade seja hoje um dos terrenos mais férteis para esse formato, o mesmo raciocínio deve se espalhar por outras áreas da saúde. Diabetes, hipertensão, saúde mental, saúde da mulher e doenças cardiovasculares aparecem entre os segmentos mais propensos a adotar estruturas de cuidado contínuo, justamente porque dependem de acompanhamento prolongado, ajuste de conduta e manutenção do engajamento do paciente ao longo do tempo.
No horizonte traçado por Vander Valente, o futuro da saúde será menos parecido com uma transação e mais com uma relação duradoura. “A plataforma que entender que está construindo uma relação de cuidado, e não vendendo consultas, é a que vai definir como a saúde vai funcionar na próxima década”, avalia.
Dessa forma, a transformação em curso não é apenas tecnológica, ela é também cultural. O paciente já não busca somente um atendimento, busca alguém que acompanhe sua evolução, responda quando o tratamento sair do trilho e esteja presente nos longos intervalos em que a vida real acontece. É justamente nesse espaço, entre uma consulta e outra, que o futuro da saúde começa a ser redesenhado.
Para mais informações sobre a Althera e acompanhamento contínuo na saúde digital, acesse: https://althera.com.br