O crescimento da economia criativa tem aberto espaço para profissionais que conseguem transformar conhecimento especializado em um modelo de negócio sustentável. É o caso de Adriano Ruan, intérprete de Libras que encontrou nas redes sociais uma vitrine para ampliar sua atuação profissional e hoje tem cerca de 90% da renda proveniente de apresentações em shows e festivais. Com mais de 356 mil seguidores no Instagram, ele já participou de eventos de artistas como Anitta, Joelma, Simone Mendes e Gustavo Mioto, consolidando uma carreira construída na combinação entre acessibilidade, performance artística e presença digital.
Natural de Itajubá (MG), Adriano descobriu a Língua Brasileira de Sinais durante um curso técnico em Administração. A presença de uma colega surda motivou a inclusão de conteúdos básicos de Libras na sala de aula, despertando um interesse que acabou definindo sua trajetória profissional.
Mesmo sem contato frequente com a comunidade surda naquele período, ele decidiu aprofundar os estudos. Em 2012, começou a publicar interpretações musicais em Libras no YouTube, inicialmente apenas como registro pessoal. O retorno positivo do público fez com que mantivesse a produção de conteúdo enquanto trabalhava como tradutor escolar e concluía a graduação em Psicologia, profissão que também exerce com atendimentos voltados exclusivamente para pessoas surdas.
Ao longo dos anos, percebeu que a interpretação artística exigia uma comunicação diferente daquela utilizada em ambientes acadêmicos. Em vez de uma tradução mais técnica, passou a explorar ritmo, expressão corporal e linguagem cênica para transmitir ao público surdo a mesma emoção vivida por quem acompanha os shows ouvindo as músicas.
“Percebi que a Libras artística tinha outras ferramentas, como o ritmo, o corpo e a energia, o que combinava com o meu perfil. Sou uma pessoa agitada, ando depressa e falo rápido. Quando vi que existia uma parte da Libras em que eu podia ser eu mesmo na entrega, migrei para os palcos. A arte se mistura com a sua história real”, relata.
A mudança de posicionamento também impulsionou sua carreira. Em 2024, Adriano recebeu o convite para atuar em um show de Anitta. Embora tenha aceitado participar inicialmente sem remuneração, por admiração à artista e pela oportunidade de apresentar seu trabalho em um grande palco, a experiência ampliou significativamente sua visibilidade.
Após apresentações em eventos como o Rock the Mountain, o Arraiá do Povo, em Sergipe, e o Forró Itaúnas, o intérprete passou a ser contratado para festivais em diferentes estados brasileiros. Nesse período, sua audiência nas redes sociais cresceu rapidamente, passando de aproximadamente 50 mil para mais de 356 mil seguidores.
Apesar da relevância da presença digital, Adriano afirma que sua estratégia de negócios não depende da venda de publicidade nas redes sociais. O conteúdo publicado funciona principalmente como um portfólio para empresas, produtoras e organizadores de eventos que buscam profissionais especializados em acessibilidade.
“Eu uso meu Instagram para ganhar outros contratos. O dinheiro não vem das publis, vem dos trabalhos que estão conhecendo meu trabalho e vão me contratar porque viram algum vídeo meu”, revela.
Antes de cada apresentação, ele realiza um processo de preparação que inclui pesquisa sobre o repertório, estudo das letras e observação da interpretação dos artistas. O objetivo é reproduzir, por meio da Libras, não apenas as palavras, mas também a intensidade emocional presente no espetáculo.
“Muitas pessoas falam: ‘nossa, você entrega muito no palco’. Mas na verdade, o que eu penso é que o show é essa energia toda. Então eu preciso entregar para a comunidade surda a mesma energia que os ouvintes estão sentindo. O palco é energia, não é só letra. Aí por isso que eu saio daquele contexto de mexer só as mãozinhas”, afirma.
Além das apresentações ao vivo, o intérprete recebe propostas frequentes para divulgar cursos de Libras, especializações e projetos educacionais. No entanto, afirma que escolhe cuidadosamente as parcerias comerciais, priorizando iniciativas que considera relevantes para a comunidade surda e alinhadas aos seus próprios valores profissionais.

Para ele, o crescimento da acessibilidade em grandes eventos representa também uma oportunidade para ampliar a conscientização sobre inclusão e abrir espaço para novos profissionais da área.
“As pessoas perguntam pra mim: ‘você interpreta para surdo ou você interpreta para ouvinte?’ Eu interpreto para os dois, eu interpreto para surdo enquanto acessibilidade e para ouvinte para eles verem a importância disso e trazer isso para a vida porque Libras é uma língua reconhecida como meio de comunicação da comunidade surda no Brasil. Existem mais de 10 milhões de surdos no país e a gente tem que estar preparado para se comunicar”, finaliza.
Ao transformar a produção de conteúdo em uma ferramenta de prospecção comercial, Adriano Ruan construiu um modelo de negócio baseado em autoridade, posicionamento digital e especialização. Sua trajetória mostra como a economia criativa tem criado novas oportunidades para profissionais que unem conhecimento técnico, comunicação e presença nas plataformas digitais para expandir mercados e gerar impacto social.