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Jones Machado Alerta Sobre Cannabis Medicinal: “O Maior Inimigo Hoje Não é a Legislação. É a Desinformação”

Consultor certificado em endocanabinologia explica por que o preconceito, os mitos e o excesso de informações sem respaldo científico ainda impedem milhares de pacientes de conhecerem uma alternativa terapêutica que pode transformar suas vidas (e deve sempre ser avaliada com acompanhamento médico).

A cannabis medicinal conquistou espaço nas discussões científicas, avançou em regulamentação e passou a fazer parte da rotina de muitos profissionais da saúde. E esseinteresse crescente não acontece por acaso. Além do potencial terapêutico para condições específicas, muitos pacientes relatam benefícios que vão além do sintoma que motivou o tratamento. Segundo Jones Machado, consultor certificado em endocanabinologia pela Fundação Daya, do Chile, isso acontece porque o sistema endocanabinoide participa da regulação de funções essenciais do organismo, como resposta ao estresse, inflamação, dor, sono e equilíbrio fisiológico.

Na prática, explica o especialista, uma pessoa pode iniciar o tratamento com CBD (canabidiol) para ansiedade e perceber também melhora na qualidade do sono, na disposição ao longo do dia e na qualidade de vida como consequência desse reequilíbrio. Ele destaca ainda que o canabidiol possui um perfil farmacológico diferente dos benzodiazepínicos, com evidências de baixo potencial de abuso e dependência e sem produzir, em geral, o efeito sedativo intenso ou o comprometimento cognitivo.

Isso, porém, não significa que um tratamento substitua o outro, já que toda indicação deve ser individualizada e acompanhada por um médico.

Por isso, para Jones Machado, fundador da H3 CBD Brasil, o maior obstáculo para que pacientes tenham acesso a tratamentos seguros já não é a legislação brasileira, mas a desinformação. Segundo ele, o desconhecimento sobre CBD continua alimentando preconceitos, falsas promessas e decisões baseadas no medo, quando o debate deveria estar centrado na ciência, na orientação médica e na individualização de cada tratamento.

Nesta entrevista, Jones analisa os principais desafios da cannabis medicinal no Brasil e explica por que informação de qualidade pode ser tão importante quanto o próprio acesso ao tratamento.

Por que você afirma que o maior obstáculo para a cannabis medicinal hoje é a desinformação?

A desinformação atrasa tratamentos, alimenta medos e faz com que muitos pacientes sofram por mais tempo sem sequer conversar com um profissional capacitado sobre essa possibilidade terapêutica. Existem pessoas convivendo com epilepsias de difícil controle, dores crônicas, espasticidade, distúrbios do sono e outras condições complexas, mas que rejeitam o tratamento antes mesmo de compreendê-lo. Muitas ainda pensam que utilizar cannabis medicinal significa “ficar alterado” ou fazer uso recreativo de maconha. Isso não é verdade.

Canabidiol, THC e os demais componentes da planta têm características, concentrações e aplicações diferentes. A escolha da formulação depende da condição clínica, da resposta individual, dos medicamentos que o paciente já utiliza e da avaliação do profissional prescritor.

A desinformação também cria o problema contrário: pessoas comprando produtos sem procedência, usando doses aleatórias ou abandonando tratamentos convencionais. Portanto, informar corretamente não significa apenas ampliar o acesso. Significa proteger o paciente e promover um tratamento mais seguro, individualizado e responsável.

 Por que tantas pessoas ainda confundem cannabis medicinal com uso recreativo da maconha?

Durante décadas, praticamente toda discussão sobre cannabis foi construída dentro de um contexto policial, moral ou recreativo. Pouco se falava sobre farmacologia, sistema endocanabinoide, diferentes canabinoides, concentrações, vias de administração e acompanhamento médico. Cannabis medicinal não significa fumar maconha. Estamos falando de produtos formulados, com concentrações conhecidas de substâncias como CBD e THC, utilizados com uma finalidade terapêutica e sob prescrição.

A própria Organização Mundial da Saúde já concluiu que o canabidiol puro não apresenta sinais indicativos de potencial de abuso ou dependência. Isso não significa que qualquer produto seja isento de riscos, mas mostra como é errado tratar todos os derivados da cannabis como se fossem a mesma coisa.

Quando o debate fica preso ao preconceito, perdemos a oportunidade de discutir o que realmente importa: para quais condições existem evidências, quais pacientes podem se beneficiar, quais são os riscos, como escolher produtos confiáveis e como acompanhar os resultados.

 Quais são os principais mitos sobre o CBD?

Escuto dois extremos. O primeiro é: “CBD é maconha, causa dependência e deixa a pessoa dopada”. O segundo é: “CBD é natural, então pode ser usado por qualquer pessoa, para qualquer problema e sem nenhum risco”. Os dois pensamentos estão errados.

O CBD não provoca a intoxicação típica do THC. Porém, isso não significa que possa ser utilizado de qualquer maneira. Ele pode provocar efeitos adversos, como sonolência, alterações gastrointestinais e mudanças no apetite, além de interagir com outros medicamentos. Em determinadas situações, é necessário acompanhar enzimas hepáticas e rever doses de remédios utilizados simultaneamente.

O mito mais preocupante é o de que, por ser derivado de uma planta, o CBD seria automaticamente seguro. Natural não é sinônimo de inofensivo. Cannabis medicinal deve ser tratada com a mesma seriedade utilizada em qualquer outra estratégia terapêutica.

O Brasil avançou mais na regulamentação do que na conscientização da população?

Sem dúvida. O Brasil já possui caminhos regulatórios que permitem o acesso a produtos de cannabis, tanto por meio dos produtos autorizados para comercialização no país quanto pela importação excepcional para uso próprio, atualmente disciplinada pela RDC nº 660/2022.

Entretanto, a informação não avançou na mesma velocidade. Muitas pessoas nem sabem que esse acesso existe legalmente mediante prescrição. Ainda precisamos investir muito em educação médica, orientação aos pacientes, rastreabilidade, transparência de composição e combate à publicidade irresponsável.

Regulação sem educação cria acesso, mas não garante entendimento. E acesso sem conhecimento pode resultar tanto em preconceito quanto em uso inadequado.

Como diferenciar informação científica de falsas promessas sobre o CBD?

A primeira pergunta deve ser: qual é a qualidade da evidência para aquela condição específica? Não basta dizer que existem “estudos”. Ciência séria não promete cura para tudo. Ela apresenta possibilidades, limitações, riscos e graus diferentes de evidência. Eu acredito no enorme potencial terapêutico da cannabis, mas acredito ainda mais na responsabilidade de não vender esperança sem sustentação científica.

Qual é a responsabilidade das empresas nesse processo?

Combater a desinformação não é responsabilidade de uma única classe. O médico precisa estudar, avaliar o paciente, prescrever com critério e acompanhar os resultados. O farmacêutico deve contribuir com a segurança, a qualidade e as possíveis interações medicamentosas. As empresas precisam garantir transparência, rastreabilidade, padronização e comunicação responsável.

Também é fundamental que o paciente entenda que a cannabis medicinal não deve ser utilizada como automedicação ou como substituição automática de outros tratamentos.

Na H3 Brasil, eu defendo uma ideia muito clara: antes de vender um produto, precisamos gerar conhecimento. Uma empresa de saúde não pode construir sua reputação apenas com marketing. Precisa contribuir para que médicos e pacientes tomem decisões mais conscientes.

Quando uma empresa exagera benefícios ou esconde limitações, ela não prejudica somente um paciente. Ela compromete a credibilidade de todo o setor. Esse mercado só será verdadeiramente sustentável se ciência, ética e educação crescerem juntas.

 O perfil de quem procura informações sobre cannabis medicinal mudou?

O preconceito vem diminuindo, mas ainda está longe de desaparecer. Hoje recebemos perguntas de médicos de diferentes especialidades, profissionais da saúde, empresários, atletas, familiares de idosos e pais de crianças com condições complexas.

Antes, muitas pessoas queriam apenas saber se a cannabis era legal. Hoje perguntam sobre diferenças entre CBD e THC, espectro completo, isolado, concentração por dose, interações medicamentosas e evidências para determinadas condições.

Ao mesmo tempo, a popularização trouxe o desafio do excesso de informações superficiais nas redes sociais. Muitas pessoas chegam já convencidas de que precisam de um produto específico, sem terem sido avaliadas ou sem saberem se aquela composição é adequada para elas.Portanto, o preconceito diminuiu, mas a responsabilidade precisa aumentar. O próximo passo não é apenas fazer a população aceitar a cannabis medicinal. É ajudá-la a compreendê-la corretamente.

Que mensagem você deixa para quem ainda tem receio da cannabis medicinal?

Não aceite a cannabis medicinal por modismo, mas também não a rejeite por preconceito. Conheça as evidências, converse com profissionais capacitados e entenda que estamos falando de uma possibilidade terapêutica séria, que pode beneficiar determinados pacientes quando existe indicação, produto adequado e acompanhamento

O preconceito fecha portas antes da análise. A ciência abre espaço para uma decisão consciente. E, quando estamos falando de saúde, sofrimento e qualidade de vida, nenhuma decisão deveria ser tomada com base em medo, desinformação ou julgamento.

Ao longo da entrevista, Jones Machado reforça que a cannabis medicinal não deve ser vista como uma solução milagrosa, mas como uma alternativa terapêutica respaldada pela ciência para situações específicas e sempre dependente de indicação médica. Na avaliação do especialista, ampliar o acesso à informação qualificada será decisivo para que pacientes, familiares e profissionais façam escolhas mais conscientes.

Mais informações e conteúdos sobre cannabis medicinal podem ser acompanhados no Instagram de Jones Machado(@jonesmachado_oficial) e no perfil oficial da H3 Brasil (@h3brasilcbd).

Foto: Tom Almeida

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