O avanço das apostas esportivas online, conhecidas como bets, tem gerado um cenário de preocupação crescente entre especialistas e grupos de apoio. Cada vez mais jovens, incluindo adolescentes, buscam auxílio para tratar a dependência de jogos, um problema que tem impactado a saúde mental e a estabilidade financeira de uma parcela significativa da população brasileira.
A vulnerabilidade dos jovens frente ao jogo online
A facilidade de acesso às plataformas por meio de dispositivos móveis ampliou a exposição de menores de idade ao universo das apostas. Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indicam que uma em cada cinco pessoas no mundo inicia a prática até os 11 anos de idade. Esse comportamento é corroborado por uma pesquisa realizada no Brasil e divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação, que revelou que 9,5% dos estudantes entrevistados fizeram sua primeira aposta aos 11 anos.
A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que o cérebro adolescente é particularmente suscetível a essa dinâmica. Como as regiões responsáveis pelo controle de impulsos e pela avaliação de riscos ainda estão em processo de maturação, o jovem sente intensamente o prazer da recompensa imediata, mas carece de mecanismos biológicos para frear o comportamento compulsivo.
O impacto financeiro e a perda de controle
O caso de Gustavo Pereira, de 24 anos, ilustra as consequências severas do vício. Após iniciar as apostas aos 18 anos, ele acumulou perdas que somaram meio milhão de reais ao longo de seis anos. O jovem relata que a distorção sobre o valor do dinheiro e a ganância alimentada pela interface das plataformas foram fatores determinantes para a perda do controle sobre suas finanças e saúde mental.
Relatórios do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) reforçam a gravidade do cenário, apontando que, em 2024, pelo menos 24 milhões de brasileiros participaram de apostas, com quase metade desse contingente enfrentando problemas de endividamento. A situação é agravada por estratégias de marketing que, segundo o IBICT, exploram a imaturidade financeira de crianças e adolescentes.
A busca por recuperação e o papel das irmandades
Para muitos, o caminho de saída passa pelo suporte de grupos como a irmandade Jogadores Anônimos. Luiz Carlos, integrante do grupo, destaca que o perfil dos novos membros mudou drasticamente, com a chegada frequente de jovens entre 14 e 35 anos. Ele ressalta que a tecnologia transformou o celular em um cassino portátil, eliminando as barreiras físicas que antes limitavam o acesso ao jogo.
Atualmente, o foco de quem busca a recuperação é reconstruir a vida após o colapso financeiro. Gustavo Pereira, por exemplo, tem utilizado as redes sociais para compartilhar sua trajetória de superação, atuando como um exemplo para outros que enfrentam a mesma compulsão. A abstinência, conquistada com apoio mútuo, é vista como o primeiro passo para retomar o controle sobre o futuro.