O falecimento do médico sanitarista Paulo Roberto Teixeira, ocorrido no último sábado (19), aos 77 anos, gerou uma onda de homenagens entre especialistas e gestores públicos. Reconhecido como uma das figuras mais influentes na resposta brasileira à epidemia de HIV e aids, Teixeira deixou um legado marcado pela defesa intransigente dos direitos humanos e pela estruturação de políticas públicas de saúde que se tornaram referência global.
Sua atuação foi determinante para transformar o cenário de desamparo que cercava os pacientes nas décadas de 1980 e 1990. Ao longo de sua carreira, o médico ocupou posições estratégicas tanto no âmbito nacional quanto internacional, consolidando o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) como um pilar fundamental no controle da transmissão e no tratamento do vírus.
Pioneirismo no combate à aids e visão humanizada
Desde o início da epidemia, Teixeira destacou-se por combater o estigma que marginalizava os infectados. Em 1983, ele assumiu a liderança do primeiro programa dedicado ao enfrentamento da doença na América Latina, sediado em São Paulo. Sua abordagem ia além da clínica médica, integrando aspectos sociais e éticos essenciais para o acolhimento dos pacientes.
O especialista compreendia que a resposta à epidemia exigia uma articulação entre ciência e sociedade civil. Em 2003, co-organizou a obra Histórias da Aids no Brasil, um registro fundamental que documenta a evolução das políticas governamentais e a mobilização popular no enfrentamento da crise sanitária que, na época, representava uma sentença de morte para a maioria dos diagnosticados.
A luta global pelo acesso aos antirretrovirais
Um dos capítulos mais significativos da carreira de Paulo Roberto Teixeira foi sua atuação na democratização do acesso aos medicamentos antirretrovirais. Nos anos 1990, quando os custos dos tratamentos eram proibitivos, o médico defendeu a quebra de patentes e a transferência de tecnologia como medidas de saúde pública prioritárias.
Essa postura foi decisiva para que o Brasil estabelecesse um modelo de distribuição gratuita de medicamentos, consolidando um entendimento que seria posteriormente validado pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Segundo dados da UNAIDS, a implementação dessas estratégias contribuiu para uma redução drástica na mortalidade global, que caiu de 2,1 milhões de óbitos anuais no início dos anos 2000 para 570 mil nos registros mais recentes.
Legado na saúde pública e gestão institucional
A influência de Teixeira estendeu-se para além das fronteiras brasileiras. Ao liderar o Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde e atuar no departamento de HIV/Aids da Organização Mundial da Saúde (OMS) a partir de 2003, ele ajudou a moldar diretrizes internacionais de cuidado. Sua gestão foi pautada pela ciência e pela garantia de direitos, princípios que o Ministério da Saúde ressaltou em nota oficial de pesar.
O impacto de seu trabalho permanece vivo na estrutura do SUS, que hoje atende milhões de brasileiros convivendo com o vírus. A trajetória de Paulo Roberto Teixeira permanece como um exemplo de como a gestão pública, quando aliada ao compromisso ético, pode alterar o curso de uma crise sanitária e salvar inúmeras vidas.