Uma pesquisa abrangente realizada durante a pandemia de covid-19 revelou que 40% dos brasileiros infectados pelo coronavírus fizeram uso do chamado kit covid. O conjunto de medicamentos, que inclui substâncias como cloroquina, ivermectina e azitromicina, não possui eficácia comprovada contra a infecção, mas foi amplamente difundido no país como uma alternativa de tratamento.
Os dados foram publicados na Revista de Saúde Pública e integram o projeto Epicovid. Para garantir a precisão dos resultados, a investigação ouviu 9,5 mil pessoas que contraíram a doença em 133 municípios, abrangendo todas as regiões do território nacional.
Perfil do consumo e disparidades regionais
O levantamento aponta que mais de 60% dos entrevistados utilizaram algum tipo de medicamento para combater os sintomas da doença. Os antitérmicos foram os mais comuns, presentes em 53% dos relatos, seguidos por antibióticos em geral, com 36%, e especificamente a azitromicina, utilizada por 27% dos participantes.
A ivermectina foi citada por 23% dos infectados, enquanto a cloroquina apareceu em 12% dos casos. A epidemiologista Romina Buffarini, da Universidade Federal de Pelotas, ressalta que o índice de 39% referente ao uso do kit covid é preocupante, visto que o estudo contabilizou apenas pacientes com diagnóstico confirmado, excluindo aqueles que utilizaram os fármacos de forma preventiva.
Fatores socioeconômicos e o uso de medicamentos
Diferente de outros padrões de consumo médico, o uso do kit covid apresentou uma correlação inversa com o nível de renda e escolaridade. Indivíduos com menor poder aquisitivo e menor grau de instrução tenderam a recorrer com maior frequência a esses medicamentos, um fenômeno que desafia as tendências observadas em outros estudos sobre o acesso a terapias farmacológicas.
Geograficamente, o consumo foi mais elevado nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Além disso, o perfil demográfico predominante foi de mulheres com idades entre 40 e 59 anos, contrariando a expectativa de que o consumo de remédios seria mais acentuado entre a população idosa.
A complexa relação entre confiança e ciência
O estudo também investigou a percepção dos participantes sobre o trabalho científico. Surpreendentemente, a confiança na ciência não foi um fator determinante para evitar o uso dos medicamentos ineficazes. Entre os que declararam desconfiar dos cientistas, a taxa de uso foi de 43%, enquanto entre os que afirmaram confiar, o índice foi de 38%.
Essa proximidade estatística sugere que a promoção do kit covid, muitas vezes revestida por um falso verniz científico ou baseada em estudos preliminares e fraudulentos, conseguiu atingir diferentes camadas da população. O cenário reforça a dificuldade de combater a desinformação em momentos de crise sanitária, mesmo entre públicos que se declaram adeptos do método científico.