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Entre a Experiência como Paciente e o Cuidado com o Outro: Dra. Jamile Lopes e a Medicina que Transforma Vidas

Desde a infância, a Medicina esteve presente na vida da Dra. Jamile Lopes. Nascida com uma condição ortopédica que exigiu diversas cirurgias, ela conheceu de perto os corredores dos hospitais, os procedimentos cirúrgicos, os medos e as expectativas de quem está do outro lado do cuidado. Essa experiência não apenas despertou sua vocação, mas também moldou a forma como hoje enxerga cada paciente: como uma pessoa única, que carrega histórias, dúvidas, angústias e expectativas.

Otorrinolaringologista, com atuação voltada especialmente para a saúde respiratória, o sono e as cirurgias nasais, Dra. Jamile construiu uma trajetória que une atendimento clínico, procedimentos e formação cirúrgica especializada. Sua experiência em cirurgia nasal e cirurgia de base de crânio ampliou sua visão sobre a complexa anatomia das vias aéreas e sobre a importância de um diagnóstico preciso e individualizado.

Nesta entrevista à Pulsar Brasil, Dra. Jamile Lopes fala sobre sua escolha pela Medicina, os impactos do ronco e da apneia do sono, a relação entre problemas nasais e qualidade do sono, o diagnóstico e tratamento da rinite alérgica, além de esclarecer alguns dos principais mitos que circulam nas redes sociais.

Sua escolha pela Medicina nasceu de uma experiência muito pessoal, após vivenciar diversas cirurgias ainda na infância. De que forma essa história influenciou a médica que você se tornou e a maneira como enxerga o cuidado com seus pacientes?

Quando criança, por ter nascido com um problema ortopédico e ter realizado diversas cirurgias, era muito comum estar em hospitais. Isso despertou em mim uma vontade imensa de estar do outro lado, de ser a pessoa que atende. A qualidade de vida que meu ortopedista e toda a equipe me proporcionaram, transformando a realidade de alguém que talvez não pudesse andar em uma pessoa funcional, não tem preço.

Toda essa situação também me permitiu enxergar a Medicina com os olhos do paciente: a expectativa, o medo, as dúvidas, a necessidade de ser empática e a angústia de uma mãe deixando sua filha no centro cirúrgico.

Um paciente é a vida todinha de alguém. Ele merece ser tratado com respeito, empatia, responsabilidade e com o melhor do meu conhecimento técnico. Ele não é definido pela doença que o faz me procurar. Existe uma pessoa por trás dessa doença, e acolhê-la e escutá-la é extremamente importante e faz toda a diferença.

A Otorrinolaringologia é uma especialidade bastante ampla, envolvendo respiração, sono, audição, voz, equilíbrio e deglutição. O que despertou seu interesse pela área e, posteriormente, pela Medicina do Sono e pelas cirurgias nasais?

Para mim, a Otorrinolaringologia é uma especialidade muito completa da Medicina. Ela me permite atender pacientes de todas as faixas etárias, diagnosticar e tratar uma ampla gama de doenças e realizar procedimentos cirúrgicos. Esse leque de possibilidades me atraiu muito.

Foi durante a residência que percebi como a respiração normal e um sono de qualidade eram subestimados pelas pessoas em geral e como a qualidade de vida delas mudava após o tratamento. A possibilidade de ajudar mais pessoas a respirar e dormir melhor foi o que me levou a me dedicar mais às cirurgias nasais e ao tratamento do ronco e da apneia.

Ronco e apneia do sono ainda são frequentemente tratados como problemas simples ou apenas relacionados ao hábito de dormir. Quais sinais indicam que é importante investigar essas condições com um especialista?

Apesar de ronco e apneia serem vistos como algo comum e rotineiro, eles não são normais. Essas condições demandam diagnóstico e tratamento, tanto pelo risco que podem trazer à saúde do paciente quanto pelo impacto social que podem causar.

Se você apresenta ronco importante, com pausas frequentes da respiração ou sensação de acordar engasgado, a avaliação médica se torna muito importante. Acordar cansado, mesmo após ter dormido um número adequado de horas, e apresentar sonolência excessiva durante o dia também são sinais de que o sono pode não estar sendo de qualidade e indicam a necessidade de procurar ajuda médica.

É importante lembrar que crianças também podem apresentar ronco e apneia do sono. A respiração oral pode levar a alterações no crescimento da face e a alterações ortodônticas, por exemplo. Na criança, o sono inadequado também pode estar relacionado a comportamento hiperativo, dificuldades escolares e alterações de humor.

De que maneira problemas nasais, como desvio de septo, sinusite e rinite alérgica, podem interferir na qualidade do sono e na respiração durante a noite?

O ronco e, consequentemente, a apneia são condições causadas por múltiplos fatores, e as alterações anatômicas das vias aéreas superiores fazem parte deles.

Quando o paciente apresenta alguma obstrução nasal proveniente de um desvio de septo, de uma rinite ou sinusite mal tratada ou de um pólipo nasal, não ocorre a passagem adequada de ar pela cavidade nasal. Com isso, a respiração oral surge como uma forma de compensação.

O paciente pode acordar com a boca seca e até apresentar salivação no travesseiro. O sono passa a ser fragmentado, impedindo o descanso adequado do cérebro. A sensação pode ser a de dormir oito horas, mas parecer que dormiu apenas três.

A rinite alérgica é uma condição muito comum, mas nem sempre recebe o tratamento adequado. Como funciona a investigação das alergias por meio do Prick Test e em quais situações a imunoterapia pode ser indicada?

Para saber se a rinite do paciente é do tipo alérgica e qual é o aeroalérgeno responsável, existe um exame chamado Prick Test.

Ele é realizado por meio de pequenas punturas na pele, com a aplicação de uma pequena quantidade de cada alérgeno, como ácaros, fungos, pólen e epitélio de animais. Após 15 a 20 minutos, é feita a leitura do teste para verificar se o paciente apresentou alguma reação. É um exame praticamente indolor e pode ser realizado inclusive em crianças.

Identificar o alérgeno também ajuda a orientar medidas de controle ambiental e a tornar o tratamento mais direcionado para cada paciente.

Quando a rinite é do tipo alérgica e descobrimos, por meio do Prick Test, o que desencadeia as crises, pode-se considerar a imunoterapia como uma opção terapêutica, conhecida popularmente como “vacina para rinite”. Ela consiste em oferecer ao paciente, por via sublingual ou subcutânea, um extrato com o alérgeno ao qual ele reage, para que o organismo seja dessensibilizado e passe a não responder de maneira tão exagerada quando for exposto novamente.

Trata-se de um tratamento indicado principalmente para pacientes muito sintomáticos e com dificuldade de controle com os tratamentos convencionais. É o único tratamento para rinite alérgica capaz de modificar a evolução da doença, e não apenas controlar seus sintomas.

Você possui formação em cirurgia nasal e também em cirurgia de base de crânio, incluindo procedimentos realizados por acesso nasal. O que essa experiência acrescentou à sua visão sobre a anatomia e o tratamento das doenças do nariz e dos seios da face?

A cirurgia de base de crânio consiste na remoção de tumores ou outras lesões localizadas na base do crânio, em conjunto com o neurocirurgião, por meio do nariz.

Para que ela possa ser realizada com segurança, o estudo da anatomia deve ser intenso, pois existem várias estruturas extremamente importantes na região, como a artéria carótida interna, uma das principais responsáveis pelo suprimento de sangue do cérebro, e o nervo óptico, entre outras.

Por ter essa formação, o domínio da anatomia da região nasal e paranasal, bem como das técnicas cirúrgicas adequadas, permite uma visão mais ampla para as cirurgias de desvio de septo, sinusite crônica e pólipos nasais. Desse modo, posso operar com mais segurança e com a certeza de estar buscando o melhor para o paciente.

Hoje existe uma grande quantidade de informações sobre ronco, apneia, rinite e sinusite nas redes sociais. Quais são os principais mitos que você gostaria de esclarecer para quem busca informações sobre esses problemas?

Existem alguns mitos muito importantes que precisam ser desmistificados.

O primeiro deles é: nem toda dor de cabeça na região da fronte é sinusite. Muitas vezes, aquilo que você pensa ser sinusite pode, na verdade, ser uma crise de rinite mal tratada.

Também existe o mito de que toda rinite é alérgica. Não é. Existem vários tipos de rinite, como a vasomotora, na qual há piora dos sintomas, por exemplo, diante de mudanças bruscas de temperatura. O mesmo paciente também pode apresentar mais de um tipo de rinite. Por isso, o tratamento precisa ser individualizado.

Outro mito comum é: “Roncar é normal, todo mundo ronca”. Não, roncar não é normal. Além de não ser normal, o ronco pode estar associado a alterações importantes na saúde. É necessário investigar.

Há ainda o mito da chamada “cirurgia para ronco”. Não existe uma cirurgia única para o ronco. A Medicina não é uma receita de bolo. A cirurgia pode envolver somente o nariz, somente a garganta ou ambos, e a técnica cirúrgica depende da alteração anatômica que o paciente apresenta.

Ao olhar para sua trajetória, que reúne atendimento clínico, procedimentos, cirurgias e diferentes especializações, qual é a sua visão sobre a importância de um cuidado individualizado para ajudar cada paciente a respirar, dormir e viver melhor?

Creio que esse é o grande propósito que me atraiu para a Medicina, primeiramente, e depois para a Otorrinolaringologia: a possibilidade de olhar cada paciente como uma pessoa única, com suas dúvidas, angústias, estilo de vida e comorbidades.

Apenas olhando o paciente como um todo, e não apenas para um exame físico alterado, é possível atendê-lo de forma ética, resolutiva e empática. Esse atendimento integrado é o que permite chegar ao diagnóstico correto e alcançar o melhor resultado possível com o tratamento, ajudando o paciente a ter mais qualidade de vida.

UM OLHAR QUE VAI ALÉM DO DIAGNÓSTICO

A trajetória da Dra. Jamile Lopes mostra como uma experiência vivida ainda na infância pode se transformar em propósito profissional. Ao conhecer a Medicina primeiro como paciente, ela levou para sua prática uma perspectiva que valoriza não apenas o diagnóstico e o tratamento, mas também a escuta, o acolhimento e a individualidade de cada pessoa.

Em uma especialidade que interfere diretamente em funções essenciais como respirar e dormir, seu trabalho reforça a importância de investigar sintomas que muitas vezes são banalizados e de buscar tratamentos baseados em avaliação individualizada e conhecimento científico.

Para Dra. Jamile, cuidar vai além de tratar uma doença. É compreender quem está diante dela e oferecer, por meio da Medicina, a possibilidade de respirar melhor, dormir melhor e viver com mais qualidade.

Foto: @fenoull

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