Sabe aquele dia que nunca sai da memória? A formatura, a festa de 15 anos, o casamento de alguém querido, o chá revelação. Com o tempo, muitos detalhes se apagam, mas uma lembrança costuma resistir: o que estávamos vestindo. E quando a data ainda está por vir, a espera ganha um ritual silencioso, o de imaginar, semana após semana, a roupa que vai marcar aquele momento. Nessas ocasiões, a roupa deixa de ser detalhe e passa a ocupar o centro da cena.
Foi para entender esse universo que o Portal Pulsar Brasil e o Pulsar+ conversaram com Ismael Kunze, fundador da Kunze, marca de moda feminina sediada em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. Antes de empreender, ele trabalhou como auxiliar de cabeleireiro, experiência que o aproximou cedo da beleza e da autoestima. Foram oito anos até transformar em realidade o desejo, cultivado desde 2012, de ter o próprio negócio: a loja abriu as portas em 2020 e, neste ano, ganhou um site que leva as peças a qualquer ponto do país, de cidades gaúchas a Macapá, no Amapá.
Na entrevista, Ismael fala sobre a decisão de colocar o próprio nome na etiqueta, hoje Ismael by Kunze, a curadoria que elegeu o marrom como o novo preto, o atendimento que dá segurança a quem compra moda festa à distância e o conselho para quem ainda espera a hora certa de começar.
Antes da Kunze, você trabalhou como auxiliar de cabeleireiro. O que essa experiência, tão ligada à autoestima e ao contato com as pessoas, ensinou e que você leva hoje para dentro da loja?
Antes da Kunze, eu trabalhei como auxiliar de cabeleireiro, e foi uma experiência que me ensinou muito mais do que sobre beleza. Foi ali que comecei a entender o verdadeiro impacto que uma transformação pode ter na autoestima de uma pessoa. Aprendi a ouvir, observar e entender que cada cliente chega com uma história, uma personalidade e uma expectativa diferente. Muitas vezes, uma mudança no cabelo não era apenas estética; era sobre se sentir mais confiante, se reencontrar e sair dali se enxergando de uma maneira diferente. Esse olhar para as pessoas eu trouxe comigo para a Kunze. Hoje, acredito que a moda também tem esse poder de transformação. Uma roupa pode mudar a postura, despertar confiança e até marcar um momento importante na vida de alguém. Por isso, para mim, a Kunze nunca foi apenas sobre vender roupas. É sobre pessoas. É entender quem está do outro lado, perceber o que ela procura e proporcionar uma experiência em que ela se sinta bonita, segura e representada. O cabeleireiro me ensinou a trabalhar com autoestima. A moda me ensinou a transformar essa experiência em propósito.
A marca começou como Kunze Store, virou Kunze e hoje assina Ismael by Kunze. O que significou colocar o seu próprio nome na etiqueta?
Colocar meu próprio nome na etiqueta representa uma evolução muito grande na minha trajetória como empresário. No início, eu estava muito focado em construir uma loja, em fazer o negócio acontecer e em conquistar espaço. A “Kunze Store” representava esse primeiro momento. Depois, quando passou a ser apenas “Kunze”, a marca já tinha ganhado mais identidade e personalidade. Com o amadurecimento do negócio, eu também amadureci como empresário. Passei a entender com mais clareza qual era a minha visão, o que eu queria construir e, principalmente, o que eu queria que a marca representasse. Foi aí que fez sentido colocar o meu próprio nome: “Ismael by Kunze”. Para mim, não é simplesmente colocar o meu nome em uma etiqueta. É assumir a autoria e a responsabilidade por aquilo que construí. É dizer que existe uma visão, uma curadoria e uma identidade por trás da marca. Hoje, eu me sinto muito mais empresário do que quando comecei. E o “Ismael by Kunze” simboliza justamente essa evolução: a marca deixou de representar apenas uma loja e passou a representar também a minha trajetória, minhas escolhas e a maneira como eu enxergo o negócio e a moda. É uma fase em que a empresa cresceu, mas eu também cresci junto com ela.

Você costuma dizer que a Kunze vende looks, mas participa de momentos. Existe alguma cliente ou ocasião que tenha mostrado isso de forma especial?
Sim, e são vários momentos que me fazem perceber que a Kunze vai muito além de vender uma roupa. Já tive clientes que me mandaram fotos usando peças da Kunze na formatura dos filhos, em festas de 15 anos, em formaturas, em chás revelação e em tantos outros momentos importantes. E existe algo muito especial em receber essas fotos depois, porque naquele momento eu percebo que aquela peça que estava na loja passou a fazer parte de uma história. Uma situação que me marcou foi receber a foto de uma cliente na formatura da filha, usando um vestido da Kunze. Para mim, não era apenas uma cliente usando um vestido que comprou na loja. Era uma mãe vivendo um momento que provavelmente esperou durante anos para viver. E, de alguma forma, a Kunze estava presente naquela memória. É aí que eu percebo o verdadeiro significado do nosso trabalho. A roupa vai deixar de existir apenas como uma peça no guarda-roupa e vai ficar registrada em uma fotografia, em uma lembrança, em uma história de família. Talvez essa seja uma das maiores realizações que eu tenho como empresário: saber que uma peça que saiu da minha loja esteve presente em um momento que aquela mulher vai lembrar para o resto da vida. A gente vende looks, mas participa de momentos. E, para mim, essa é uma das partes mais bonitas de construir a Kunze.
A variedade de cores é uma das marcas registradas da Kunze. Como funciona a escolha das peças e o que não pode faltar em uma coleção com a cara da marca?
A escolha das peças foi sendo construída ao longo desses anos de experiência com a loja e, principalmente, observando o comportamento das nossas clientes. Com o tempo, fui entendendo quais modelagens elas realmente gostam, quais peças procuram e o que faz sentido para diferentes ocasiões. Um exemplo muito claro é o vestido midi. Ele se tornou uma peça-chave da Kunze porque é extremamente versátil: dependendo da produção, pode ser usado em um jantar, em um evento, em uma comemoração ou até em uma ocasião mais especial. Por isso, é uma modelagem que não pode faltar na nossa curadoria. As cores também fazem parte dessa leitura. O preto é um clássico indispensável e sempre tem espaço na Kunze. Mas, atualmente, o marrom ganhou muito destaque e eu costumo dizer que ele é o “novo preto”. É uma cor sofisticada, fácil de combinar e que permite criar propostas diferentes sem perder a elegância. Por isso, hoje temos uma variedade grande de peças nessa tonalidade. No fim, nossa curadoria une tendência com aquilo que realmente funciona para a cliente. Eu gosto de trazer novidades, mas sem perder de vista as peças que já sabemos que fazem sentido para o nosso público. Acho que é justamente esse equilíbrio entre moda, versatilidade e experiência de loja que ajuda a construir a identidade da Kunze.
O site da Kunze já atende clientes de todo o Brasil? Como funciona hoje o envio para outros estados?
Sim. A Kunze já atendia clientes de todo o Brasil mesmo antes de termos um site. Ao longo dos anos, fomos construindo essa relação principalmente pelas redes sociais e pelo atendimento direto, enviando peças para diferentes estados. A criação do site aconteceu mais recentemente e foi um passo importante nessa evolução. Eu sempre tive um certo cuidado em criar essa estrutura porque nossas clientes gostam muito de conversar, tirar dúvidas, ver detalhes da peça e entender melhor o caimento antes de comprar. Então, eu queria que o nosso online não fosse apenas uma vitrine, mas que conseguisse oferecer uma experiência completa. Neste ano, finalmente colocamos o site no ar, e ele veio para agregar ao que já fazíamos. Hoje, a cliente pode conhecer as peças, consultar as informações, escolher o que deseja e receber em qualquer lugar do Brasil, enquanto nosso atendimento continua próximo e disponível para ajudar no que for necessário. Para mim, o site representa mais uma etapa do crescimento da Kunze: a loja física continua sendo a nossa essência, mas agora conseguimos levar a experiência da marca para muito além da nossa cidade.
Além do Rio Grande do Sul, de quais regiões do país vêm os pedidos? Algum lugar surpreendeu você pela procura?
Hoje, recebemos pedidos de diferentes regiões do Brasil, e isso é algo que me deixa muito feliz porque mostra como a Kunze foi conseguindo ultrapassar as fronteiras do Rio Grande do Sul. Um lugar que particularmente me surpreendeu foi Macapá, no Amapá. Quando comecei a receber pedidos de lugares tão distantes, percebi de uma forma muito concreta o alcance que a marca estava conquistando. É muito especial pensar que uma peça que foi escolhida e preparada aqui no Sul pode atravessar o país e chegar a uma cliente em Macapá, por exemplo. São essas situações que mostram que a Kunze deixou de ser apenas uma loja local e passou a construir uma presença cada vez mais nacional. E acho que esse é um dos lados mais gratificantes do empreendedorismo: você começa com uma ideia pequena, dentro da sua realidade, e com o tempo percebe que aquilo que você construiu está chegando a pessoas que você jamais imaginou alcançar.
Comprar roupa de festa sem experimentar ainda gera insegurança em muita gente. Como a Kunze ajuda a cliente do online a escolher o tamanho e o modelo certos?
Sim, principalmente quando falamos de moda festa. A cliente quer ter segurança de que o vestido vai vestir bem, porque muitas vezes é uma peça para um momento importante, e comprar sem experimentar pode gerar essa insegurança. Por isso, nosso atendimento online é muito próximo. Antes de finalizar a compra, a cliente pode tirar todas as dúvidas com a nossa equipe. Enviamos fotos e vídeos reais das peças e, quando ela quer entender melhor o caimento, podemos mostrar o vestido no corpo de uma das nossas vendedoras. Isso ajuda muito a visualizar a modelagem e entender como a peça se comporta no corpo. Também fazemos as medidas da peça com fita métrica quando necessário, principalmente quando a cliente está em dúvida entre dois tamanhos. A gente procura entender as medidas dela, o modelo do vestido e o tipo de caimento que ela procura para orientar da melhor maneira possível. E existe também a segurança da troca, conforme a nossa política. Então, mais do que simplesmente vender pelo site, nosso objetivo é fazer com que a cliente sinta que tem alguém do outro lado ajudando na escolha. Acredito que esse atendimento próximo é justamente o que transforma uma compra online em uma experiência mais segura e humanizada.
Olhando para o caminho que começou como um sonho guardado, onde você quer ver a Kunze nos próximos anos? E o que diria a quem ainda está esperando a hora certa de tirar um projeto do papel?
Quando olho para a trajetória da Kunze, percebo o quanto ela cresceu junto comigo. O que começou como um sonho que eu guardava comigo se transformou em uma empresa, em uma marca e em uma história construída com muito trabalho, erros, aprendizados e coragem para continuar. Nos próximos anos, quero ver a Kunze cada vez mais forte, alcançando novas pessoas e ocupando novos espaços. Quero continuar construindo uma marca que tenha identidade, que seja reconhecida pela experiência que proporciona e que consiga levar essa essência para além das nossas fronteiras. Mas, acima de tudo, quero continuar crescendo como empresário sem perder aquilo que me trouxe até aqui: a vontade de fazer acontecer. E para quem ainda está esperando a hora certa para tirar um projeto do papel, eu diria: talvez a hora perfeita nunca chegue. Eu também tive medo, dúvidas e muitos motivos para esperar. Mas aprendi que algumas coisas só começam a dar certo depois que a gente começa. Não é preciso ter tudo pronto para começar. É preciso ter coragem para dar o primeiro passo, disposição para aprender no caminho e persistência para continuar quando as coisas não saírem como planejado. Porque, no fim, o sonho só começa a se transformar em realidade quando a gente decide começar.

O percurso de Ismael ecoa o de milhares de brasileiros que escolheram a moda para empreender. Segundo o Sebrae, os pequenos negócios respondem por mais de 98% das empresas da cadeia produtiva da moda no país, um universo que convive com obstáculos como o acesso a crédito e a necessidade constante de ganhar competitividade. Nesse cenário, a diferença raramente está no tamanho da operação. Está na capacidade de conhecer de perto a cliente, ler o comportamento de consumo e oferecer uma experiência que vá além da peça, exatamente o que sustenta a proposta da Kunze.
Da vontade guardada por anos ao site que hoje faz uma peça escolhida no Sul atravessar o país até Macapá, a Kunze mostra uma marca que cresceu no mesmo compasso de quem a criou. Entre coleções, mudanças de endereço e um novo nome na etiqueta, o fundador preserva o princípio que orienta o negócio desde a primeira arara: vender roupas é apenas parte do trabalho, e o essencial está em participar dos momentos que as clientes não esquecem. Para os próximos capítulos, a disposição é a mesma que tirou a Kunze do papel.
A loja virtual da Kunze pode ser acessada em www.kunzeloja.com.br
Instagram: @ismakunze