Editoria: Priscilla Ávila
Durante dez anos, a biomédica Janayne Louza Fonseca trabalhou nos bastidores da saúde. No laboratório de análises clínicas, sua rotina era investigar o que o organismo revelava em exames, enquanto à noite lecionava em um curso técnico da área. A estética surgiu nesse período como especialização paralela, um segundo plano pensado para caminhar ao lado da carreira já consolidada.
O rumo mudou com uma gestação gemelar de alto risco. Repouso, bebês prematuros e, logo depois, a pandemia impuseram uma pausa que ela nunca havia cogitado. Mãe de três filhos e decidida a não abandonar a vida profissional, Janayne encontrou na estética facial o espaço para se reinventar. Há seis anos, dedica-se à harmonização e a procedimentos como bioestimuladores, toxina botulínica, microagulhamento e fios lisos, sempre com um princípio que trouxe do laboratório: cada paciente é único e exige avaliação individualizada.
Nesta entrevista ao Portal Pulsar Brasil, ela fala sobre a transição entre duas áreas da saúde, a busca por resultados que preservem a identidade de cada rosto e os desafios de conciliar maternidade, empreendedorismo e vida pessoal.
Sua trajetória começou na Biomedicina e passou por 10 anos no laboratório de análises clínicas antes da estética. O que essa experiência trouxe para a profissional que você é hoje?
Minha experiência no laboratório de análises clínicas foi fundamental para a profissional que sou hoje. O laboratório me ensinou sobre o acolhimento e a ter um olhar mais criterioso baseado em conhecimento científico, precisão e responsabilidade.
Aprendi a respeitar protocolos, observar detalhes, interpretar resultados e, principalmente, a entender que cada paciente é único e precisa ser avaliado de forma individualizada.
Quando migrei para a estética, levei comigo essa base técnica e esse senso de responsabilidade. Isso me ajudou a enxergar a estética não apenas como beleza, mas como uma área que exige conhecimento, segurança, planejamento e atualização constante.
Uma gestação gemelar de alto risco mudou sua rotina profissional e abriu caminho para a estética. Como esse momento transformou sua visão sobre carreira, maternidade e propósito?
Quando iniciei a especialização em estética, era um segundo plano, a intenção era conciliar com a rotina no laboratório de análises clínicas e com as aulas que eu lecionava à noite no curso técnico em análises clínicas. Com a gestação de alto risco, repouso, bebês prematuros e posteriormente a pandemia, foi necessário me reinventar, e ficar exclusivamente em casa nunca esteve nos meus planos. Foi então que percebi que o segundo plano, que era a estética, passou a ser o plano que Deus já tinha preparado pra mim. Com três crianças, já não era possível cumprir com a rotina que o laboratório e as aulas exigiam de mim. Hoje, vejo que cuidar da beleza vai muito além da aparência: envolve autoestima, identidade, confiança e a forma como cada mulher se enxerga.
A maternidade me tornou mais sensível ao olhar para o outro, e a estética me permitiu transformar essa sensibilidade em profissão. Aprendi que não precisamos escolher entre sermos mães e mulheres realizadas profissionalmente. Podemos encontrar novas formas de construir nossos caminhos, mesmo quando eles não acontecem como planejamos.
Hoje, entendo que aquela mudança não foi apenas uma escolha de carreira, mas o início de uma nova versão de mim mesma como mulher, mãe e profissional.

Você fala muito sobre realçar a beleza com naturalidade. O que significa, para você, um resultado estético bonito sem perder a identidade e as características de cada paciente?
Antes de pensar em qualquer procedimento, gosto de observar o rosto como um todo, entender as características, as proporções e, principalmente, ouvir o que aquela paciente deseja. Muitas vezes, pequenas intervenções são suficientes para trazer mais harmonia e devolver à pessoa uma aparência mais descansada.
Acredito que o melhor resultado é aquele em que a paciente se olha no espelho e continua se reconhecendo, se sentindo ainda melhor consigo mesma.
Após seis anos atuando com estética facial e harmonização, quais foram as principais mudanças que você percebeu na forma como as pessoas enxergam os procedimentos estéticos?
Ao longo do tempo, percebi que a estética deixou de ser vista apenas como uma busca por transformação e passou a ser cada vez mais associada a cuidado, prevenção e autoestima.
Hoje, muitas pacientes chegam procurando justamente algo mais sutil. Elas querem envelhecer bem, cuidar da pele, prevenir algumas alterações e manter suas características, sem necessariamente querer que as pessoas percebam que fizeram algum procedimento.
Também vejo pacientes muito mais informadas e conscientes. Isso nos desafia, como profissionais, a estudar constantemente, entender novas tecnologias e, principalmente, saber dizer quando um procedimento não é necessário.

Bioestimuladores, botox, microagulhamento e fios lisos estão entre os procedimentos que fazem parte do seu trabalho. Como você define, de forma individualizada, o que realmente faz sentido para cada paciente?
Eu acredito que não existe um protocolo que funcione da mesma maneira para todo mundo. Cada paciente tem uma anatomia, uma história, uma rotina, uma queixa e um objetivo diferente.
Por isso, minha primeira ferramenta é a avaliação. Procuro entender o que realmente incomoda aquela pessoa e, a partir daí, estruturo um plano de tratamento. Às vezes, o que ela imagina precisar não é necessariamente o que eu considero mais adequado naquele momento.
Bioestimuladores, botox, microagulhamento e fios lisos são recursos que podem fazer parte do meu trabalho, mas eles são ferramentas, não são o tratamento em si. O mais importante é saber quando utilizar cada recurso, em que quantidade e, principalmente, quando não utilizar.
Ser mãe de três filhos e, ao mesmo tempo, administrar uma carreira e um negócio exige uma rotina intensa. Como você concilia maternidade, empreendedorismo e vida pessoal?
Conciliar maternidade, empreendedorismo e vida pessoal é um exercício diário. Nem sempre existe equilíbrio perfeito, e eu aprendi a não me cobrar por isso.
Ser mãe de três filhos me ensinou a organizar melhor meu tempo, estabelecer prioridades e entender que presença não significa necessariamente estar disponível o tempo todo, mas estar verdadeiramente presente nos momentos que importam.
Existem fases em que a carreira exige mais de mim e outras em que meus filhos precisam mais da minha presença. O importante é conseguir caminhar entre esses papéis sem cobrança.

Você passou de uma atuação voltada à investigação de doenças no laboratório para um trabalho diretamente ligado à autoestima. O que mais te emociona nessa transformação de ajudar alguém a se sentir melhor consigo mesma?
O que mais me emociona é perceber que, embora eu tenha saído de uma área voltada à investigação de doenças para uma profissão ligada à estética, o cuidado continua sendo o centro de tudo.
No laboratório, eu trabalhava nos bastidores, ajudando a investigar o que estava acontecendo com o organismo. Na estética, passei a acompanhar de perto uma transformação que também acontece de dentro para fora.
É muito especial quando uma paciente chega dizendo que voltou a se olhar no espelho, que se sente mais confiante ou que voltou a se cuidar. Muitas vezes, o procedimento é apenas o ponto de partida.
Acredito que autoestima não é sobre buscar uma aparência perfeita. É sobre voltar a se reconhecer, se cuidar e se sentir bem na própria pele. E poder participar desse processo é o que mais dá sentido ao meu trabalho.
Olhando para sua trajetória, que conselho você daria para outras mulheres que desejam empreender, construir uma carreira na estética e, ao mesmo tempo, viver plenamente a maternidade?
Eu diria para não esperarem o momento perfeito para começar. Muitas vezes, a gente espera ter mais tempo, mais dinheiro, mais segurança ou sentir que está completamente preparada. Mas o caminho também é construído enquanto caminhamos.
Ao mesmo tempo, empreender exige coragem, mas também exige responsabilidade. Na estética, especialmente, é fundamental estudar, se atualizar, respeitar os próprios limites e nunca colocar o resultado financeiro acima da segurança e do bem-estar do paciente.
E, como mulher e mãe, eu diria para não acreditar que você precisa abrir mão de uma parte de quem é para viver outra. É possível construir uma carreira, cuidar dos filhos, empreender e também ter sonhos pessoais, talvez não tudo ao mesmo tempo e nem de maneira perfeita, mas de uma forma que faça sentido para você.
Minha trajetória me ensinou que a maternidade não encerrou meus sonhos profissionais. Ela mudou a forma como eu os enxergava e me deu ainda mais propósito para realizá-los.

A trajetória de Janayne Louza Fonseca mostra que o rigor aprendido diante de amostras e laudos pode ganhar outra função sem perder sua essência. Da bancada do laboratório à cadeira do consultório, permanece a convicção de que segurança, avaliação criteriosa e escuta atenta vêm antes de qualquer agulha. Em um mercado frequentemente movido por excessos, sua prática aposta na sutileza e na capacidade de reconhecer quando a melhor indicação é não intervir.
Ao transformar uma pausa imposta pela vida em ponto de virada, a biomédica construiu uma carreira em que maternidade e empreendedorismo deixaram de ser escolhas excludentes. O trabalho da Dra. Janayne Louza Fonseca pode ser acompanhado pelo Instagram @janaynelouzaa.
Foto: @_wendelfotogratia
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