O Brasil é o quarto maior mercado de beleza e cuidados pessoais do mundo. O dado aparece com frequência em relatórios do setor e costuma ser celebrado como indicador de um segmento próspero, resistente a crises e em expansão consistente. O que os números não mostram, ao menos não com a mesma visibilidade, é a desproporção entre o crescimento do mercado e o nível de qualificação de quem o sustenta.
A pandemia acelerou um movimento que já estava em curso: a migração para o mercado de beleza como alternativa de renda. Cursos rápidos, certificações online e promessas de autonomia financeira atraíram um contingente expressivo de novos profissionais para áreas como design de sobrancelhas, alongamento de cílios, nail art, depilação e estética corporal. A entrada foi facilitada. A formação, em muitos casos, ficou em segundo plano.
O resultado é um mercado heterogêneo, onde a excelência técnica e a precariedade coexistem na mesma cidade, às vezes na mesma rua. Para o cliente, distinguir um profissional bem formado de um mal preparado tornou-se tarefa que exige pesquisa e atenção. Para quem investiu em formação séria, a concorrência com preços que só são possíveis porque ignoram custos reais representa um desafio permanente de comunicação e posicionamento.
A profissionalização do setor passa por alguns eixos que se reforçam mutuamente: regulamentação mais clara das habilitações exigidas para cada serviço, valorização de programas de formação continuada, e uma mudança de perspectiva por parte dos próprios profissionais sobre o que significa estar qualificado. Certificado não é sinônimo de competência. Horas de prática supervisionada, atualização constante e responsabilidade com o cliente é o que separa uma carreira sustentável de uma passagem pelo mercado.
O setor tem espaço. Tem demanda. Tem público disposto a pagar bem por serviço de qualidade. O que ainda falta, em escala, é a compreensão de que crescer rápido e crescer bem são trajetórias muito diferentes.