Empreender ainda durante a faculdade virou o primeiro passo para a construção de um negócio que hoje movimenta milhões de reais por ano. O tema foi abordado em reportagem da jornalista Marina Lang, da Pequenas Empresas & Grandes Negócios, que conta como Andrea Petrin e Maria Fernanda Carvalho transformaram um projeto iniciado em bazares informais em uma empresa de moda especializada em vestidos de festa.
Criada oficialmente em 2011, a Majesté nasceu a partir de uma ideia que surgiu quando as duas cursavam Publicidade e Propaganda. Antes mesmo da formalização da empresa, elas vendiam roupas para amigas e em pequenos eventos em São Paulo, enquanto buscavam entender qual modelo de negócio seria mais viável para o mercado brasileiro.
O primeiro plano era desenvolver um marketplace de moda. No entanto, a proposta esbarrou na realidade do comércio eletrônico da época, ainda pouco desenvolvido e dominado por grandes varejistas. Em vez de abandonar o projeto, as empreendedoras decidiram adaptar a estratégia e seguir em busca de um nicho capaz de diferenciar a marca.
A operação começou com foco na curadoria de roupas importadas, comercializadas em uma loja inaugurada em 2013 na Galeria Ouro Fino, nos Jardins, em São Paulo. Com o passar do tempo, a importação perdeu competitividade, levando a empresa a migrar para a revenda de marcas nacionais.
“Trabalhávamos com curadoria de roupas que trazíamos do exterior, mas isso foi ficando inviável. Aí começamos a investir em curadoria e revenda de marcas nacionais“, explica Andrea Petrin, cofundadora responsável pelas áreas de desenvolvimento de produto, branding e marketing da Majesté.
No mesmo período, outro movimento ajudaria a mudar completamente os rumos do negócio: o crescimento do Instagram. As sócias passaram a divulgar peças na plataforma e perceberam que o comportamento das consumidoras começava a mudar rapidamente.
A virada definitiva aconteceu quando Maria Fernanda Carvalho, hoje responsável pela operação comercial da empresa, publicou nas redes sociais um vestido usado em uma festa. A repercussão surpreendeu as empreendedoras e revelou uma oportunidade até então pouco explorada no mercado brasileiro.
“Ali, nós vimos que era uma demanda reprimida e carente de itens modernos, mais baratos, que atendessem ao gosto de consumidoras jovens. Vestidos de festas, na época, eram caríssimos, custando milhares de reais, e pouco acessíveis. Havia recorrência ao aluguel de roupas, que também era um modelo falho, porque muitas vezes o vestido precisava de ajustes para uso”, lembra a empresária.
A partir dessa percepção, as fundadoras decidiram concentrar esforços exclusivamente no segmento de vestidos de festa. Os primeiros modelos eram vendidos por cerca de R$ 400, valor considerado bastante competitivo para a categoria naquele momento.
“O preço era disruptivo porque, no geral, tudo era caro e inacessível. Não havia concorrência”, relembra Andrea Petrin.

O interesse das consumidoras cresceu rapidamente. Entre 2017 e 2018, a empresa encerrou a operação voltada à curadoria de roupas para dedicar toda a estrutura ao novo nicho. Paralelamente, iniciou parcerias com fornecedores internacionais e estruturou sua primeira produção própria no bairro do Bom Retiro, em São Paulo.
A expansão ganhou força em 2019, quando a Majesté inaugurou uma fábrica maior, com cerca de 300 metros quadrados, além de uma nova loja na Rua Peixoto Gomide, nos Jardins. O investimento, realizado com recursos próprios, somou aproximadamente R$ 400 mil e permitiu ampliar a equipe para 24 colaboradores.
A nova estrutura marcou uma mudança importante no modelo de operação da empresa, que passou a controlar uma parcela maior da produção e fortalecer sua identidade própria no mercado de vestidos para festas.
A trajetória da empresa sofreu seu maior teste em 2020, quando a pandemia interrompeu praticamente todo o mercado de eventos. Com as lojas fechadas e cerimônias canceladas, as fundadoras precisaram adaptar rapidamente a operação para preservar o caixa e manter a equipe.
Durante esse período, a Majesté passou a produzir conjuntos em tie-dye, que ajudaram a manter o faturamento enquanto o segmento de festas permanecia praticamente paralisado. Paralelamente, a empresa continuou desenvolvendo vestidos para noivas e celebrações menores, estratégia que permitiu preservar relacionamento com fornecedores e preparar o estoque para a retomada.
Com o aumento dos custos de ocupação nos Jardins, as sócias transferiram temporariamente a operação para Pinheiros. A mudança, no entanto, durou apenas quatro meses. Quando o setor de eventos voltou a crescer em 2022, a demanda surpreendeu novamente as empreendedoras, levando a marca de volta ao endereço da Rua Peixoto Gomide.
A retomada foi impulsionada por uma política de preços que buscava oferecer vestidos entre R$ 600 e R$ 700, valores que, segundo as fundadoras, ficavam cerca de 40% abaixo da média praticada por concorrentes no segmento de festas.
O aumento da procura exigiu mudanças operacionais. A loja passou a registrar filas frequentes, levando a empresa a implantar um sistema de distribuição de senhas para organizar o atendimento.
“Tivemos que implementar senhas na recepção, porque havia filas longas para compra, já que o mercado de eventos também havia paralisado e estava em retomada. Em um ano, recuperamos os dois perdidos devido à pandemia”, conta Andrea Petrin.
O crescimento sustentado levou a empresa a ampliar novamente sua estrutura. Em 2023, a produção foi concentrada em um prédio vizinho, formando um complexo fabril de aproximadamente 1,3 mil metros quadrados. No local são realizadas etapas como desenvolvimento, modelagem, graduação e corte das peças, enquanto parte da costura permanece terceirizada.
Hoje, a Majesté emprega cerca de 110 colaboradores, produz aproximadamente 4 mil vestidos por mês e comercializa entre 3 mil e 4 mil peças mensalmente.
A operação também se diversificou. Além da linha voltada para vestidos de festa, a empresa desenvolveu coleções destinadas a noivas, madrinhas, formandas, eventos sociais e festas de fim de ano.
A expansão comercial também ganhou força. Atualmente, a marca opera sete lojas físicas, localizadas em São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte, Goiânia e Brasília, além de manter operações de atacado e comércio eletrônico.
Outro foco da empresa é a experiência do consumidor. Entre as iniciativas implementadas estão sistemas digitais que permitem às clientes selecionar previamente os vestidos disponíveis antes de entrar nos provadores, reduzindo o tempo de atendimento e tornando a jornada de compra mais eficiente.
O crescimento da empresa continua sendo financiado com capital próprio. Além da consolidação do modelo omnichannel, a estratégia atual contempla a expansão internacional da marca.
A Majesté já fornece produtos para mercados como França, México, Panamá e Portugal e prepara uma nova plataforma digital com versões em diferentes idiomas. O investimento, estimado em R$ 200 mil, busca integrar estoques das lojas físicas ao e-commerce e fortalecer a operação global.
Segundo Andrea Petrin, um dos projetos da empresa era instalar um centro de distribuição nos Estados Unidos para facilitar o atendimento a clientes internacionais. A iniciativa, porém, foi suspensa após mudanças no cenário comercial provocadas pelas tarifas impostas ao Brasil durante o governo de Donald Trump.
Mesmo diante desse cenário, as fundadoras mantêm os planos de expansão. Após registrar R$ 33 milhões de faturamento no último ano, a expectativa é encerrar este exercício com receita próxima de R$ 37 milhões, sustentada pela combinação entre lojas físicas, vendas digitais e fortalecimento da atuação internacional.