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Cabelos em Foco: Jéssica Mendonça Explica as Principais Causas da Queda Capilar e a Importância do Diagnóstico Precoce

A saúde dos cabelos vai muito além da estética. A queda capilar, o afinamento dos fios e as alterações no couro cabeludo podem estar relacionados a diferentes condições e, em alguns casos, representar sinais de doenças que precisam de investigação e tratamento especializado.

Médica dermatologista e especialista em cabelos, Jéssica Mendonça atua com foco em pele, queda capilar e alopecias e é membro da International Society of Trichoscopy. Nesta entrevista, a médica explica as principais causas da queda de cabelo, fala sobre a importância da tricoscopia, os impactos do estresse, da alimentação e das alterações hormonais na saúde capilar e alerta para os riscos de tratamentos baseados em promessas milagrosas.

Mais do que buscar soluções rápidas, a especialista reforça a importância de compreender a causa do problema e individualizar o tratamento. Afinal, cada tipo de alopecia apresenta características próprias e exige uma abordagem específica.

Quais são as principais causas da queda de cabelo que levam homens e mulheres a procurar um especialista?

Entre as causas mais frequentes estão a alopecia androgenética, conhecida como calvície; o eflúvio telógeno, que pode surgir após estresse, infecções, cirurgias, emagrecimento, pós-parto ou alterações nutricionais; além de doenças autoimunes, como a alopecia areata.

Também é importante lembrar que uma pessoa pode apresentar mais de uma condição ao mesmo tempo. É comum, por exemplo, que um episódio de queda intensa revele uma predisposição à calvície que ainda não havia sido percebida.

Como diferenciar uma queda capilar considerada normal de um quadro que merece investigação médica?

O cabelo passa naturalmente por ciclos de crescimento, repouso e queda. Por isso, perder certa quantidade de fios diariamente é esperado, aproximadamente 100 a 150 fios por dia.

O que deve chamar a atenção é uma mudança em relação ao padrão habitual: começar a cair muito mais fios durante o banho, formar tufos nas mãos, encontrar fios em excesso no travesseiro, nas roupas ou pela casa, precisar limpar a escova com mais frequência ou perceber que o rabo de cavalo está mais fino.

Mesmo sem uma queda intensa, o surgimento de entradas, o alargamento da risca central, o couro cabeludo mais aparente ou a redução progressiva do volume também merecem investigação. E, se houver falhas, coceira, dor, ardência, descamação ou feridas, a avaliação deve ser feita ainda mais cedo.

Se a queda aumentou, não melhora ao longo das semanas ou já está alterando a densidade, é o momento de procurar um especialista.

As alopecias podem ter diferentes causas e manifestações. Quais são os tipos mais frequentes e como é feito o diagnóstico?

As mais frequentes são a alopecia androgenética, que provoca afinamento progressivo dos fios. Nos homens, costuma comprometer entradas e coroa; nas mulheres, geralmente causa redução da densidade na região central.

Também temos o eflúvio telógeno, caracterizado por uma queda difusa, muitas vezes iniciada alguns meses depois de um fator desencadeante; a alopecia areata, uma doença autoimune que geralmente provoca falhas arredondadas em placas, embora possa apresentar outros padrões; a alopecia por tração, relacionada à tensão repetida causada por penteados, extensões, mega hair ou outros hábitos; e as alopecias cicatriciais, que são doenças inflamatórias capazes de destruir o folículo e causar perda definitiva dos fios.

O diagnóstico começa com uma história clínica detalhada, incluindo tempo de evolução, padrão da queda, antecedentes familiares, medicamentos, doenças, alimentação e acontecimentos recentes, além do exame do couro cabeludo por meio da tricoscopia. Dependendo do caso, podem ser necessários outros exames e até biópsia do couro cabeludo.

Qual é a importância da tricoscopia na avaliação do couro cabeludo e na identificação das diferentes doenças capilares?

A tricoscopia é uma etapa essencial da consulta capilar, porque muitas doenças podem parecer semelhantes a olho nu, mas exigem tratamentos completamente diferentes.

Com esse exame, conseguimos ampliar o couro cabeludo e visualizar alterações que não seriam percebidas em uma avaliação comum, como miniaturização dos fios, sinais de inflamação, descamação ao redor dos folículos, fios quebrados e características específicas de cada tipo de alopecia.

Ela ajuda a diferenciar uma queda temporária de uma doença progressiva, identificar sinais precoces de calvície e reconhecer alopecias cicatriciais, nas quais o folículo pode ser destruído de forma definitiva. Também orienta a necessidade de exames complementares ou biópsia.

Além de contribuir para um diagnóstico mais preciso, a tricoscopia permite registrar imagens e acompanhar objetivamente a evolução do tratamento. Por isso, uma avaliação capilar sem tricoscopia pode deixar passar informações fundamentais. Não basta apenas olhar o cabelo; é preciso examinar de perto o couro cabeludo e os folículos para promover uma saúde capilar sustentável.

Estresse, alimentação, alterações hormonais e mudanças na rotina podem realmente influenciar a saúde dos cabelos? De que maneira?

Sim. O folículo capilar é muito sensível às mudanças do organismo. Estresse intenso, febre, infecções, cirurgias, privação de sono, pós-parto, suspensão de anticoncepcionais, emagrecimento rápido e dietas muito restritivas podem fazer com que uma quantidade maior de fios entre precocemente na fase de queda.

Deficiências nutricionais, alterações da tireoide e desequilíbrios hormonais também podem interferir no ciclo capilar. No entanto, normalmente existe um intervalo entre o fator desencadeante e a queda percebida. Por isso, durante a consulta, investigamos não apenas o momento atual, mas também o que aconteceu nos meses anteriores.

Isso não significa que toda queda seja causada por falta de vitaminas ou por estresse. A investigação precisa ser individualizada para evitar suplementações desnecessárias, que podem até piorar o caso e atrasar o diagnóstico.

Existem muitos tratamentos e produtos disponíveis para queda capilar. Como o paciente pode evitar promessas milagrosas e entender o que realmente pode funcionar para o seu caso?

O primeiro passo é compreender que “queda de cabelo” é um sintoma, e não um diagnóstico. Por trás da queda existem várias causas e ela pode estar associada a diferentes doenças. Um produto pode ser útil para determinada condição e não ter nenhum benefício para outra.

Por isso, não existe um único shampoo, vitamina ou procedimento capaz de tratar todas as causas. É muito importante ter consciência de que não existe produto milagroso.

Sempre alerto meus pacientes a desconfiarem de promessas de crescimento rápido, resultado garantido ou cura definitiva. O cabelo tem um ciclo biológico lento e, portanto, os resultados geralmente exigem meses de tratamento e acompanhamento médico.

A escolha deve considerar o diagnóstico, o estágio da doença, as condições de saúde, as contraindicações e as evidências científicas disponíveis. Além disso, suplementos devem ser indicados quando houver necessidade real, porque usar vitaminas indiscriminadamente não substitui o diagnóstico e também pode trazer riscos.

É importante entender que cada pessoa é única e que os tratamentos precisam ser completamente individualizados.

A saúde do couro cabeludo também interfere na qualidade dos fios? Quais cuidados são fundamentais para manter essa região saudável?

A saúde do couro cabeludo interfere diretamente na qualidade dos fios. O couro cabeludo é o ambiente onde vive o nosso folículo.

Algumas doenças do couro cabeludo podem provocar inflamação ao redor do folículo e, quando não diagnosticadas e tratadas precocemente, levar à sua destruição definitiva. É o que acontece nas alopecias cicatriciais: o folículo é substituído por fibrose e, depois que ele é perdido, não consegue mais produzir um novo fio.

O alerta é que essas doenças nem sempre causam uma queda intensa. Os primeiros sinais podem ser coceira persistente, dor, ardência, sensibilidade, vermelhidão, descamação ao redor dos fios, feridas, pústulas ou pequenas áreas com redução de densidade. Algumas alterações são discretas e só conseguem ser identificadas adequadamente durante o exame do couro cabeludo e a tricoscopia.

Além de manter uma higiene adequada, evitar coçar, remover crostas ou aplicar receitas caseiras, é fundamental não ignorar sintomas persistentes. O shampoo pode auxiliar no controle de algumas condições, mas não substitui o diagnóstico médico e o tratamento de uma doença inflamatória.

Cuidar do couro cabeludo não significa apenas manter a região limpa: significa preservar a saúde e a viabilidade dos folículos. Quanto mais cedo uma doença é identificada, maiores são as chances de controlar a inflamação e evitar uma perda capilar irreversível.

Quais sinais indicam que uma pessoa deve procurar um especialista e por que o diagnóstico precoce pode fazer diferença no tratamento das doenças capilares?

A consulta é indicada quando há queda intensa ou persistente, afinamento progressivo, entradas aumentando, risca central mais larga, falhas localizadas, quebra importante, perda de sobrancelhas e outros pelos, redução perceptível do volume capilar ou quando o paciente deseja estímulo e melhora da densidade capilar.

Sintomas como dor, ardência, coceira intensa, vermelhidão, descamação, pústulas e feridas também são sinais de alerta. Da mesma forma, pessoas com histórico familiar de calvície ou que percebem o couro cabeludo cada vez mais aparente não devem esperar a perda avançar.

O diagnóstico precoce é especialmente importante porque algumas alopecias são progressivas. Nas formas cicatriciais, a inflamação pode destruir definitivamente os folículos. Mesmo na calvície, iniciar o tratamento enquanto ainda existem folículos viáveis aumenta a possibilidade de preservar os fios.

Em doenças capilares, muitas vezes, preservar é mais previsível do que tentar recuperar o que já foi perdido. É o que nós sempre dizemos: tempo é cabelo! Quanto antes começamos, melhores serão os resultados.

O cuidado que começa pelo diagnóstico

A conversa com Jéssica Mendonça mostra que cuidar dos cabelos vai muito além de escolher produtos ou buscar soluções rápidas. Queda, afinamento e alterações no couro cabeludo podem ter diferentes origens e, por isso, precisam ser avaliados de forma individualizada.

A tricoscopia, a investigação clínica detalhada e o acompanhamento especializado são ferramentas importantes para identificar alterações precocemente e direcionar cada paciente ao tratamento adequado.

Em um cenário marcado por promessas de resultados imediatos, a orientação da especialista reforça um princípio fundamental: saúde capilar exige tempo, diagnóstico preciso e acompanhamento. E, quando o assunto é cabelo, agir cedo pode fazer toda a diferença na preservação dos fios.

Foto: @higor.lima

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