A dor crônica atinge cerca de 40% da população brasileira, um índice que supera as médias globais e coloca o país em um cenário de alerta para a saúde pública. Diferente da dor aguda, que funciona como um mecanismo de proteção imediato, a condição persistente se estabelece como uma patologia complexa que exige uma abordagem especializada, indo muito além da simples prescrição de medicamentos analgésicos.
Em entrevista ao programa VEJA e Cuide-se, a cinesiologista e especialista no tema, Mariana Schamas, professora da Universidade de São Paulo (USP), detalha que o sofrimento prolongado é frequentemente subtratado devido a lacunas na formação acadêmica dos profissionais de saúde. A autora do livro A dor é um convite para a mudança reforça que a percepção da dor envolve uma fisiologia própria, exigindo que o paciente seja visto em sua totalidade.
A complexidade do tratamento multidisciplinar
O manejo eficaz da dor crônica demanda uma estratégia que integra diversas frentes terapêuticas. O uso isolado de fármacos raramente resolve o quadro, sendo necessário instituir pilares como a higiene do sono, o controle rigoroso do estresse e a prática de psicoterapia. A atividade física, quando prescrita de forma individualizada, atua como um componente central na reabilitação funcional do indivíduo.
A especialista destaca que o tratamento multidisciplinar é o padrão-ouro para devolver a autonomia ao paciente. Ao combinar intervenções físicas e comportamentais, é possível reduzir a intensidade dos sintomas e permitir que o corpo retome suas atividades habituais, silenciando o ciclo de dor que limita o cotidiano.
Superando mitos sobre o repouso e o envelhecimento
Um dos maiores obstáculos para a recuperação é a disseminação de conceitos errôneos, como a crença de que a dor é uma consequência inevitável do envelhecimento. Essa visão fatalista impede que muitos busquem ajuda profissional adequada, levando à cronificação de problemas que poderiam ser controlados ou revertidos com a intervenção correta.
Outro equívoco comum é a recomendação de repouso absoluto para dores nas costas ou articulações. A literatura científica atual aponta que a imobilidade prolongada pode, na verdade, agravar o quadro, enfraquecendo a musculatura e perpetuando o ciclo de desconforto. O foco deve ser sempre a funcionalidade, buscando profissionais que compreendam o histórico do paciente sem recorrer à culpabilização.
Mudança de perspectiva como ferramenta de cura
Mais do que uma resposta física, a dor pode ser interpretada como um sinal de alerta sobre estilos de vida que necessitam de ajustes profundos. A abordagem defendida por Schamas sugere que o sofrimento não deve ser normalizado, mas utilizado como um convite para a transformação de hábitos e rotinas que sustentam o processo inflamatório ou tensional.
Ao reprogramar a forma como o cérebro processa esses sinais, o paciente consegue gerenciar melhor suas limitações. O objetivo final é a retomada da qualidade de vida, garantindo que o indivíduo deixe de ser definido pelo seu diagnóstico e recupere sua plena capacidade de atuação no mundo.