Entrevista Especial | Outubro Rosa | Portal Pulsar Brasil
No Outubro Rosa, falar sobre saúde das mamas também é falar sobre histórias, recomeços e sobre a possibilidade de voltar a se reconhecer diante do espelho. À frente dessa missão, a Dra. Carú construiu uma trajetória marcada pela cirurgia plástica, pela reconstrução mamária e, sobretudo, por uma experiência que transformou profundamente sua forma de cuidar: ela também esteve do outro lado, como paciente oncológica.
Desde o início da formação médica, quando já sabia que queria ser cirurgiã, até a descoberta da paixão pela cirurgia plástica durante o contato com pacientes vítimas de queimaduras, sua trajetória foi conduzida pelo desejo de restaurar não apenas formas, mas também confiança, autoestima e qualidade de vida.
Especialista em cirurgias mamárias estéticas e reconstrutivas, a Dra. Carú encontrou na reconstrução um propósito ainda maior. Sua própria vivência tornou seu olhar mais sensível às mulheres que enfrentam o câncer de mama e os impactos físicos e emocionais do tratamento. Para ela, devolver uma mama pode representar muito mais do que reconstruir uma parte do corpo: pode significar devolver à paciente a sensação de estar inteira novamente.
Nesta entrevista especial ao Portal Pulsar Brasil, a Dra. Carú fala sobre sua trajetória, a importância da cirurgia mamária, sua experiência como paciente oncológica, os desafios e expectativas relacionados ao explante de próteses, a formação de novos cirurgiões e a relação de confiança que considera essencial entre médico e paciente.

Dra. Carú, olhando para o início da sua trajetória na Medicina, quais foram os momentos que mais contribuíram para você chegar até a Cirurgia Plástica e se tornar a profissional que é hoje?
Eu entrei na faculdade com o objetivo de ser cirurgiã. Nunca pensei em outra carreira. No meu quarto ano, me apaixonei pelo cuidado com pacientes vítimas de queimaduras, e isso me levou a escolher a cirurgia plástica.
Ao final da minha residência, fui fazer um fellow em reconstrução mamária no antigo Hospital Pérola Byington e me encontrei não somente na reconstrução mamária, mas em todas as cirurgias de mamas.
A senhora atua tanto na cirurgia estética quanto na reconstrutiva. O que essas duas áreas ensinaram à senhora sobre as diferentes histórias e expectativas que existem por trás de cada paciente?
As cirurgias estéticas vêm com expectativas muito maiores em relação à beleza, rejuvenescimento e outros aspectos. Mas, apesar disso, é extremamente gratificante ver aquela pessoa recuperar sua confiança e autoestima.
Não se trata de voltar a ser jovem, mas de ter liberdade para vestir uma roupa e se expor para o parceiro ou parceira com mais confiança.
Já no caso das cirurgias reconstrutivas, a satisfação de ver uma área do corpo sendo restaurada, o paciente voltar à normalidade e recuperar a simetria é um sentimento difícil de explicar.
Uma vez, uma paciente estava muito aflita no início da cirurgia de reconstrução total de uma mama. Ao acordar da anestesia, ainda na sala, ela procurou o lado onde antes não tinha mais a mama e, ao sentir que ela havia sido “devolvida”, suspirou e sorriu.
É para esses momentos que trabalhamos. Eles alimentam nossa busca por sermos cada vez melhores.

A cirurgia mamária ocupa um lugar muito importante na sua atuação. O que fez essa área ganhar tanto significado na sua trajetória profissional?
Eu acredito que as mamas são a parte mais bonita do corpo da mulher e o principal símbolo da feminilidade.
Essa mesma região sofre muito com os efeitos do envelhecimento, das gestações e da amamentação. Por isso, ganha tanto significado na minha vida profissional.
Acredito que o embelezamento das mamas contribui profundamente para a beleza e a confiança de qualquer mulher.
A senhora também viveu a experiência de ser uma paciente oncológica. Como estar do outro lado, como paciente, transformou a sua maneira de enxergar e cuidar de mulheres que passam por situações semelhantes?
Eu optei por sempre compartilhar minha história com todas as pacientes que me procuram para reconstrução de qualquer tipo, principalmente de mamas.
Isso faz com que elas se sintam mais seguras e acolhidas, pois entendem que eu sei exatamente pelo que estão passando e o que estão sentindo.
Essa experiência me aproximou ainda mais de todas as minhas pacientes.

Na reconstrução mamária, muitas vezes a cirurgia vai além da recuperação física. Na sua experiência, qual é o papel da reconstrução na autoestima e na relação da mulher com o próprio corpo?
Eu, como paciente, também senti isso na pele.
É uma mudança radical não somente na autoestima, mas na liberdade e na confiança. É a sensação de retorno à normalidade, de voltar a se reconhecer como inteira.
Geralmente, o fim da reconstrução também sinaliza o término do tratamento oncológico, o que é um marco muito importante na vida de todas as pacientes que já passaram por isso.
Hoje existe também uma procura crescente pelo explante mamário. Como a senhora conduz essa decisão e o que considera fundamental conversar com a paciente antes da cirurgia?
O explante tem tido cada vez mais procura, principalmente por mulheres que tiveram quaisquer complicações com implantes de silicone ou ainda aquelas que já estão em outra fase da vida, em que não se enxergam mais com silicone ou com mamas maiores.
É fundamental ter um estudo dirigido de imagem das mamas por ressonância magnética, para que seja possível avaliar a quantidade de tecido mamário remanescente e qual seria a mama resultante do explante e da pexia.
O explante não deixa de ser uma cirurgia de reconstrução das mamas, em que utilizamos todos os tecidos para substituir o espaço deixado pela saída da prótese.
É importante alinhar muito bem com a paciente, pois, em muitos casos, as mamas após o explante podem ficar bastante pequenas.
Utilizamos o recurso de enxertia de gordura, mas, mesmo nesses casos, não é possível aumentar muito o tamanho.

Além da atuação clínica e cirúrgica, a senhora também é chefe de equipe e participa da formação de novos cirurgiões plásticos. O que significa, para a senhora, transmitir conhecimento e ajudar a formar uma nova geração de especialistas?
Eu acredito que todo conhecimento deve ser compartilhado.
E, mesmo sendo clichê, eu aprendo muito ensinando. Minha responsabilidade com nossos residentes não é somente formar bons cirurgiões, mas também melhores médicos e melhores pessoas, que coloquem o paciente no centro de toda a prática.
O ensino de cirurgia me motiva cada vez mais a seguir aprendendo novas técnicas, refinando as antigas e melhorando cada vez mais o relacionamento com as pessoas.
Além disso, sempre conhecemos muitas pessoas interessantes e fazemos grandes amizades que levamos para toda a vida.
Depois de tantos anos de experiência e de ter vivido a Medicina também como paciente, o que a senhora acredita que nunca pode faltar na relação entre um cirurgião plástico e sua paciente?
A confiança de ambas as partes.
O ato de entregar sua vida e seu corpo nas mãos de um cirurgião demanda imensa confiança. E, do lado do médico, é fundamental que saibamos que o paciente vai seguir suas recomendações e cuidados, sabendo que metade da responsabilidade pelo resultado é do paciente.
Afinal, quem opera somos nós, cirurgiões, mas quem cicatriza são os pacientes.
O bom resultado é uma vitória conjunta de ambos!

Um olhar que vai além da cirurgia
Ao longo da conversa, fica evidente que a cirurgia plástica, para a Dra. Carú, vai muito além da técnica. Existe um compromisso profundo com a história de cada mulher que chega ao seu consultório, seja em busca de transformação estética, seja em busca de reconstrução após uma doença que mudou sua relação com o próprio corpo.
Sua própria experiência como paciente trouxe ainda mais significado à sua missão de cuidar, acolher e compreender. Afinal, quando o médico também conhece a fragilidade de estar do outro lado, o olhar sobre o paciente pode ganhar uma nova dimensão.
No Outubro Rosa, a história da Dra. Carú reforça que cuidar das mamas também é cuidar da autoestima, da identidade e da vida de cada mulher.
Porque, por trás de cada cirurgia, existe uma história. E, muitas vezes, existe também a oportunidade de escrever um novo capítulo.