Em um tempo marcado pela aceleração digital, pelos vínculos atravessados pelas telas e pelas novas formas de sofrimento emocional, compreender a mente humana exige um olhar que ultrapasse diagnósticos e terminologias. Exige escuta, método, rigor científico e presença. É nesse ponto que a atuação da psicóloga Mirela Borba de Lacerda, 33 anos, ganha relevância ao integrar consultório, pesquisa, docência e produção literária, com uma prática sustentada por evidências, sensibilidade e inovação.
Com dez anos de atuação, mestrado pela Unicap, doutorado pela American University Saint Joseph e atualmente cursando PhD, ela atende em consultório particular, leciona em programas de pós-graduação e revisa artigos científicos. Seu trabalho com realidade virtual para enfrentamento de fobias, suas pesquisas sobre tecnologia na infância e seu posicionamento nas redes têm ampliado seu alcance como profissional que constrói pontes entre ciência e vida cotidiana.
Nesta entrevista exclusiva para o Portal Pulsar Brasil, Mirela Borba fala sobre sua trajetória acadêmica e clínica, explica como integra afeto e método, discute tecnologia e infância e revela o que considera essencial para cuidar da mente em tempos digitalizados.
Sua carreira começou cedo e seguiu por diferentes caminhos ao mesmo tempo: consultório, pesquisa, docência e escrita. Em que momento você percebeu que essas áreas não competiam entre si, mas se completavam?
Desde o início. Eu sempre quis fazer mestrado e doutorado, não necessariamente para ensinar, mas aprofundar minhas pesquisas. Durante a graduação, fiz iniciação científica com uma professora que estava desenvolvendo uma pesquisa, e desde lá já tomei gosto pela área científica. Aos poucos, fui percebendo que dava para conciliar bem as duas coisas. Com o tempo, percebi que esses papéis se retroalimentavam: a pesquisa refinava meu olhar clínico, e a prática diária trazia questões que enriqueciam minhas investigações científicas. É a circulação entre teoria e prática que sustenta meu trabalho.
Você integra a abordagem analítica e a terapia cognitivo-comportamental no consultório. O que essa combinação oferece ao paciente que nenhuma das abordagens, isoladamente, poderia oferecer?
Essas duas abordagens, a meu ver, são complementares. Enquanto eu tenho um olhar analítico, que me permite ir além do comportamento, também utilizo técnicas que conseguem modificá-lo. Assim, a clínica fica muito mais rica e com muito mais recursos para chegar onde o paciente precisa. A integração permite trabalhar tanto os processos mentais mais profundos e menos conscientes, quanto os padrões comportamentais e cognitivos que mantêm o sofrimento. Estudos recentes sobre modelos integrativos mostram que combinar diferentes lentes amplia a efetividade terapêutica, especialmente em quadros complexos.

O uso de realidade virtual no tratamento de fobias é um diferencial no seu trabalho. Como essa tecnologia transformou a condução clínica de casos como medo de voar, claustrofobia e fobia social?
Esse recurso mudou totalmente o tratamento de fobias. Se antes a gente tinha que ir até o objeto fóbico para fazer a exposição gradativa até o paciente perder o medo, hoje posso fazer tudo isso no conforto do consultório. Os pacientes se sentem muito mais tranquilos e fortalecidos para vencer o medo. Tenho inúmeros casos de sucesso de enfrentamento de fobias que fiz com os óculos de realidade virtual. Hoje, para mim, é o maior recurso terapêutico para o enfrentamento de fobias. A realidade virtual possibilita um protocolo de exposição gradual, controlado e seguro, que ativa os mesmos circuitos neurais envolvidos no medo real. Isso facilita o processo de dessensibilização e favorece a neuroplasticidade necessária para a redução do medo. É uma intervenção altamente validada em estudos clínicos.
Em seu dia a dia, você observa crianças, adolescentes e adultos influenciados pelo uso de telas. O que mais tem chamado sua atenção sobre como a tecnologia afeta a saúde emocional, especialmente nas famílias?
O distanciamento. Hoje, é perceptível como as famílias fazem uso da tecnologia, como já dizia Julieta Jerusalinsky, como “chupeta eletrônica” para calar o choro das crianças e cessar as demandas. Mas vale ressaltar que isso não é culpa dos pais. Vivemos em uma sociedade frenética. As famílias precisam trabalhar para sobreviver, pagar suas contas. Nem todo mundo tem apoio de babá, familiares ou recursos para deixar a criança na creche. Isso faz com que os pais, sobrecarregados, precisem ofertar algo para a criança se entreter para que possam trabalhar. Claro que existem recursos que podem ser utilizados para diminuir o uso das telas. Nos meus livros, abordo bastante essas questões. O que mais observo é o impacto na co-regulação emocional. As telas têm assumido uma função reguladora que, no desenvolvimento típico, seria realizada pela troca afetiva. Isso altera não só a rotina familiar, mas a qualidade do vínculo e da presença responsiva elementos essenciais para a construção da autorregulação emocional infantil.

No livro A Oferta de Tecnologias Digitais para Crianças de 12 a 18 Meses, você analisa o contato precoce de bebês com dispositivos. O que esse recorte revela sobre vínculos, rotina e presença parental?
Ao analisar o contato precoce de bebês com dispositivos digitais, o recorte evidencia que a presença das telas nessa idade está muito menos relacionada a um interesse espontâneo da criança e muito mais às dinâmicas familiares, aos vínculos estabelecidos e ao manejo da rotina diária. Bebês de 12 a 18 meses dependem quase integralmente da mediação adulta para explorar o mundo. Por isso, a forma como os cuidadores utilizam a tecnologia revela nuances importantes da relação pais-filhos. Quando as telas entram como ferramenta para acalmar, entreter ou ocupar o bebê, o que aparece é frequentemente uma sobrecarga parental, falta de rede de apoio e a tentativa de regular o comportamento da criança por meio de estímulos externos. Isso sinaliza que o uso do dispositivo pode funcionar como substituto momentâneo da presença afetiva e responsiva justamente um dos pilares do desenvolvimento emocional seguro. Assim, o contato precoce com dispositivos não só reflete a rotina familiar, mas também permite observar a qualidade da interação e a disponibilidade emocional que esse adulto consegue oferecer no dia a dia. Nessa fase, estamos diante de uma janela sensível do desenvolvimento socioemocional; por isso, a presença do adulto não é apenas preferível, mas estruturante.
Já no livro Brincar e Tecnologia Digital na Primeira Infância, você discute como a tecnologia altera a experiência do brincar. Como esse impacto vai além do comportamento e influencia o desenvolvimento emocional da criança?
Quando se discute a influência da tecnologia na experiência do brincar, o impacto vai muito além da mudança no tipo de brincadeira. A introdução de dispositivos digitais interfere diretamente em processos fundamentais do desenvolvimento emocional. O brincar tradicional envolve corpo, imaginação, manipulação de objetos, improviso e interação social todos elementos que constroem competências como autorregulação, criatividade, tolerância à frustração e compreensão das emoções. Já o brincar mediado por telas tende a oferecer estímulos prontos, ritmo acelerado e respostas imediatas, reduzindo a necessidade de elaborar, simbolizar ou lidar com a espera. Isso altera a forma como a criança aprende a processar emoções e organizar o pensamento. A predominância do digital pode levar a dificuldades de atenção sustentada, menor flexibilidade emocional e até prejuízo na formação de vínculos, já que boa parte das descobertas que acontecem no brincar depende da troca viva com o outro. Assim, a tecnologia não só transforma o brincar, mas também influencia profundamente o desenvolvimento afetivo e a capacidade da criança de lidar com o mundo real. A literatura sobre desenvolvimento destaca que o brincar simbólico é um eixo estruturante para a organização psíquica. Quando o lúdico se torna mediado por estímulos digitais, há um encurtamento da experiência simbólica, o que influencia diretamente a capacidade de elaborar emoções e construir narrativas internas.
Você também participa de obras acadêmicas como Estudos Atuais em Psicologia e Sociedade e Discussões Interdisciplinares em Ciências Humanas e Sociais. Na sua visão, por que a interdisciplinaridade é indispensável para entender os novos sofrimentos psíquicos?
O corpo não está isolado da mente. Isso está claro há muito tempo para o campo científico. Quando cuidamos de um paciente, precisamos enxergá-lo como um todo. O ser humano é social, biológico, político e existencial. Precisamos levar em conta todas essas esferas para poder cuidar melhor do paciente. Fenômenos como ansiedade, depressão e sofrimento relacionado às tecnologias são multifatoriais. A medicina, a sociologia, a neurociência e a psicologia oferecem explicações complementares. Sem esse diálogo, corremos o risco de tratar apenas um fragmento do sujeito.

Quando olha para sua clínica, suas obras e seu conteúdo digital, qual mensagem você gostaria de deixar como contribuição para a saúde mental no Brasil nos próximos anos?
Quando olho para minha clínica, para as obras que escrevi e para o conteúdo que compartilho, a mensagem que desejo deixar para a saúde mental no Brasil é simples e, ao mesmo tempo, urgente: precisamos humanizar o cuidado. Num país atravessado por desigualdades, ritmos acelerados e famílias sobrecarregadas, minha contribuição é lembrar que saúde mental não é um luxo é uma necessidade biológica, social e afetiva. Quero reforçar que cada sujeito carrega uma história que se inscreve no corpo, nas relações, na cultura e no tempo em que vive. Cuidar de alguém exige enxergá-lo em todas essas camadas. A ciência nos mostra, cada vez mais, que cérebro, ambiente e vínculo formam um mesmo tecido; a poesia nos lembra que esse tecido pulsa, sofre e deseja. Se pudesse deixar um legado, seria este: que possamos construir, juntos, um Brasil onde pedir ajuda não seja motivo de vergonha, onde o sofrimento psíquico seja acolhido com responsabilidade e sensibilidade, e onde a terapia seja vista como um espaço de encontro encontro com a própria história, com novas possibilidades e com o direito ao bem-estar. Que a saúde mental brasileira dos próximos anos seja menos solitária, mais acessível e, acima de tudo, profundamente humana. Também acredito na importância de aproximar a ciência das políticas públicas, garantindo acesso, prevenção e educação emocional desde a primeira infância.
Entre livros, consultório e pesquisa, a psicóloga reafirma que cuidar da saúde emocional não está apenas nos métodos nem nas tecnologias. Está na maneira como cada história é acolhida. Para ela, o futuro da psicologia não é simplesmente mais técnico ou mais digital, e sim mais humano. “A ciência me traz método, a clínica me traz experiência e os pacientes me lembram, todos os dias, que é na escuta que surgem os verdadeiros avanços”, conclui.
Esse percurso, construído entre conhecimento, afeto e presença, reforça a ideia de que, mesmo em tempos digitalizados, a mente continua sendo o lugar mais íntimo que habitamos.



