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Entre Fronteiras, Desafios e Cuidado: A Trajetória da Dra. Gabriela Melotti

A história da Dra. Gabriela Melotti é marcada por escolhas, desafios e uma profunda vontade de cuidar. O desejo de ser médica nasceu ainda na infância, inspirado por uma lembrança simples e afetiva ao lado do tio ortopedista, e ganhou novos significados ao longo de uma trajetória que a levou para longe de casa.

Foram seis anos vivendo na Rússia, onde enfrentou uma nova cultura, aprendeu outro idioma e construiu sua formação médica em meio a experiências que ultrapassaram os desafios acadêmicos. Durante esse período, Gabriela vivenciou a pandemia e o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, enfrentando um cenário de incertezas enquanto seguia sua rotina como estudante de Medicina.

De volta ao Brasil, veio uma nova etapa de desafios com a revalidação do diploma e o Revalida. A experiência internacional, somada às próprias vivências pessoais, também aproximou a médica cada vez mais da saúde mental. Hoje, sua atuação na Atenção Primária à Saúde e na Medicina de Família e Comunidade se conecta à Psicanálise e à sua formação em Psiquiatria, construindo uma visão de cuidado baseada não apenas no tratamento, mas também na escuta e no acolhimento.

Nesta entrevista à Revista Pulsar Brasil, Dra. Gabriela Melotti revisita sua trajetória, fala sobre os anos vividos na Rússia, os impactos da guerra, o retorno ao Brasil, a Medicina de Família e Comunidade e a importância de compreender o paciente para além de seus sintomas.

O sonho que começou na infância

Dra. Gabriela, você conta que sempre quis ser médica e que uma lembrança da infância, envolvendo seu tio ortopedista, marcou essa escolha. Quando olha para aquela menina que ficou fascinada ao ver o tio cuidar de seu dedo, o que sente ao perceber que aquele desejo realmente se tornou sua profissão?

Eu sinto uma espécie de realização. É bonito perceber que aquele desejo tão simples de criança realmente se tornou minha profissão. E, olhando hoje para minha trajetória, vejo que o desejo de cuidar continua o mesmo. Só fui descobrindo novas formas de fazer isso.

Eu me lembro daquele almoço de domingo em que meu tio, ortopedista, colocou meu dedo no lugar e o fixou com palitos de sorvete. Naquele momento, fiquei fascinada. Eu não imaginava que aquela cena tão simples despertaria em mim o desejo de cuidar, de curar e, de alguma forma, de consertar.

Seis anos de aprendizado na Rússia

Sua formação em Medicina aconteceu na Rússia, onde você viveu durante seis anos. Como foi sair do Brasil ainda jovem e enfrentar uma cultura, um idioma e uma formação médica tão diferentes daquilo que você conhecia?

Foi uma experiência de muito aprendizado e amadurecimento. Eu costumo dizer, de uma forma bem-humorada, que os russos preferem ser temidos, enquanto os brasileiros preferem ser amados. E isso aparecia muito na faculdade.

Os professores eram extremamente rígidos, havia muita cobrança e uma disciplina muito grande. Somava-se a isso o idioma, o inverno rigoroso e a distância da família.

No começo, foi difícil me adaptar, mas aquilo também me tornou muito mais independente e resiliente. Foram seis anos de desafios, mas também de muito crescimento. Hoje vejo que aquela experiência não me formou apenas como médica; ela também me ensinou a lidar com diferenças, adversidades e a sair da minha zona de conforto.

Medicina em meio à pandemia e à guerra

Durante sua graduação, você passou pela pandemia e também vivenciou o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Como foi conciliar a rotina de estudante de Medicina com um cenário de medo, instabilidade e incertezas, inclusive ouvindo explosões durante a madrugada?

Foi uma loucura. Primeiro veio a pandemia e, depois, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. De repente, eu estava ouvindo bombas durante a madrugada, convivendo com bunkers e até com baratas que apareciam vindas deles.

Ao mesmo tempo, havia censura, usávamos VPN para acessar informações e até o dinheiro começou a ganhar outra dinâmica, com o uso de criptomoedas.

E, no meio de tudo isso, eu continuava sendo estudante de Medicina: tinha prova, tinha aula, tinha hospital. O mais estranho era viver uma situação completamente fora do normal e, no dia seguinte, levantar e ir estudar como se a vida tivesse que continuar, porque tinha.

O retorno ao Brasil

Você chegou a deixar a Rússia atravessando a fronteira de São Petersburgo, levando consigo seus documentos e seu diploma. O que aquele momento representou para você e qual foi o sentimento de perceber que estava deixando para trás seis anos da sua vida para recomeçar no Brasil?

Foi um dos momentos mais marcantes da minha vida. Eu estava deixando para trás seis anos da minha história: a faculdade, meus amigos, uma rotina e uma vida que eu tinha construído ali. E atravessava a fronteira carregando meus documentos e meu diploma, depois de, literalmente, dar o sangue por aquele diploma.

Foi uma mistura de medo, tristeza e também a sensação de que eu precisava seguir em frente. Eu não sabia exatamente o que encontraria no Brasil, mas sabia que estava levando comigo tudo o que aqueles seis anos tinham me ensinado.

Recomeçar também é persistir

De volta ao Brasil, ainda veio o desafio da revalidação do diploma e do Revalida. O que essa etapa ensinou sobre persistência e sobre reconstruir uma trajetória profissional depois de uma experiência tão intensa no exterior?

Depois de seis anos de Medicina na Rússia, voltar para o Brasil não significava simplesmente voltar para casa. Eu ainda precisava enfrentar o Revalida e reconstruir minha trajetória profissional.

Também voltei carregando muitos dos traumas que vivi naquele período, inclusive um transtorno de estresse pós-traumático. Foi quando também precisei aprender a procurar ajuda.

No final, deu tudo certo: passei no Revalida de primeira e hoje atuo como médica no Brasil.

O verdadeiro significado de cuidar

Hoje, atuando na Atenção Primária à Saúde e na Medicina de Família e Comunidade, você fala muito sobre o vínculo com a comunidade. O que esse contato diário com os pacientes e com suas histórias tem ensinado a você sobre o verdadeiro significado de cuidar?

A Medicina de Família e Comunidade me preencheu de uma forma que eu não esperava. Eu gosto muito desse contato próximo: visitar a casa das pessoas, conhecer suas famílias e sua realidade. E até receber ovos, galinhas, frutas, esses mimos que os pacientes dão.

Mas, principalmente, acho que aprendi o poder de ouvir o outro. A Psicanálise também me ensinou muito sobre a escuta, mas a Medicina de Família me permitiu vivenciar isso na prática.

Você escuta, acompanha e começa a perceber mudanças na vida daquela pessoa ao longo do tempo. Para mim, isso é uma das partes mais bonitas de ser médica de família: poder acompanhar não só a doença, mas também a transformação do paciente.

Quando a escuta também faz parte do tratamento

Sua trajetória passou a unir Medicina de Família e Comunidade, Psicanálise e Psiquiatria. Em que momento você percebeu que compreender a saúde mental era uma parte fundamental do cuidado médico e que, muitas vezes, antes de qualquer tratamento, o paciente precisa ser verdadeiramente escutado?

Acho que isso foi acontecendo aos poucos. Na Medicina de Família, comecei a perceber o quanto o sofrimento emocional aparecia por trás das queixas físicas e o quanto uma boa escuta podia mudar uma consulta.

A Psicanálise aprofundou esse olhar e me ensinou ainda mais sobre a importância de escutar o sujeito para além do sintoma.

E hoje, concluindo minha pós-graduação em Psiquiatria, sinto que estou aprofundando justamente esse caminho. As três áreas se encontram na minha prática.

Antes de qualquer tratamento, existe uma coisa fundamental: entender quem é aquela pessoa que está sentada na minha frente.

Uma Medicina mais humana

Para encerrar, depois de tudo o que você viveu, desde a infância, os seis anos na Rússia, a pandemia, a guerra, o retorno ao Brasil e sua aproximação cada vez maior com a saúde mental, que médica você acredita que está se tornando e o que deseja levar para cada pessoa que chega até você em busca de cuidado?

Acho que estou me tornando uma médica mais humana e mais atenta ao que existe por trás de cada paciente.

Tudo o que vivi, a Rússia, a guerra, o retorno ao Brasil, os meus próprios processos e minha trajetória na saúde mental, acabou ampliando muito a minha forma de enxergar o outro.

Quero levar conhecimento, mas também escuta, acolhimento e presença. Quero que a pessoa que esteja sentada na minha frente sinta que foi realmente vista e ouvida.

No fim, acho que é isso que continua igual desde aquela menina que viu o tio “consertar” seu dedo: o desejo de cuidar.

O cuidado que atravessa fronteiras

A trajetória da Dra. Gabriela Melotti mostra que a Medicina pode nascer de uma lembrança simples, mas se transformar ao longo do caminho em uma missão construída por experiências, desafios e encontros.

Entre os corredores de uma universidade na Rússia, os momentos de incerteza durante a guerra, o retorno ao Brasil e os novos caminhos dentro da saúde mental, Gabriela foi ampliando sua compreensão sobre o que significa ser médica.

Hoje, sua prática reúne conhecimento, experiência e, sobretudo, escuta. Uma visão de cuidado que reconhece que, por trás de cada sintoma, existe uma história, uma realidade e uma pessoa que precisa ser verdadeiramente vista.

E talvez seja justamente essa conexão entre a menina que um dia ficou fascinada ao ver o tio cuidar de seu dedo e a médica que hoje acolhe seus pacientes que melhor resume sua trajetória: o desejo de cuidar permaneceu. Apenas ganhou novas formas.

Foto: @leandrodiasfotografia

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