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“O Padrão Nunca Se Estabiliza”

Mila Schneider Lavelle fala sobre beleza, redes sociais e autoestima feminina

Em entrevista para a edição de capa Depoimento do Portal Pulsar Brasil, a escolha não poderia ser mais precisa. Mila Schneider Lavelle é jornalista com formação em teologia e especialização em Marketing, reconhecida por uma atuação que atravessa fronteiras. Com passagem por grandes projetos internacionais e nacionais na posição de Head Manager, ela construiu uma trajetória marcada pela análise crítica e pelo olhar atento às tensões do mundo contemporâneo, com ênfase em geopolítica e temas de alcance global, sobretudo ligados ao Oriente Médio. É também colunista do Folha do Estado, veículo de referência no Centro-Oeste brasileiro.

É justamente esse contexto internacional que torna sua perspectiva sobre a cultura digital ainda mais singular. Mila observa o fenômeno das redes sociais de um lugar que poucos ocupam: o de quem transita entre realidades culturais distintas e, ainda assim, reconhece a uniformidade crescente dos padrões estéticos impostos pelas plataformas. Uma estética que já não respeita fronteiras geográficas nem temporais.

Nesta conversa com o Portal Pulsar Brasil, ela não entrega respostas definitivas nem um discurso de superação embalado para consumo rápido. Ela traz algo mais raro: a honestidade de quem está dentro do processo. A mulher que compreende a armadilha e admite, sem cerimônia, que ainda está aprendendo a sair dela.

Você acredita que existe hoje uma “estética padronizada” sendo replicada digitalmente? Como isso impacta a forma como as mulheres enxergam a própria identidade?

Sim, existe uma estética padronizada hoje e ela não é mais cultural, é quase algorítmica. O que antes variava por país, época ou estilo, hoje está sendo filtrado por tecnologia. Existe um “rosto ideal” que se repete: pele uniforme, traços simétricos, proporções equilibradas, aparência jovem. E isso não é coincidência, é otimização.

As plataformas recompensam o que é visualmente agradável de forma imediata, e a inteligência artificial intensificou isso. Não estamos mais falando só de maquiagem ou edição, mas de reconstrução de imagem. Isso cria um padrão que não é apenas aspiracional, é tecnicamente replicável e por isso se torna ainda mais dominante. Eu por exemplo não saio de casa sem maquiagem, simplesmente não consigo. Tirar fotos para eu postar só se realmente estiver muito bonita. Eu não nego que uso filtro, pq é viciante.

O impacto disso na identidade feminina é profundo. Porque, aos poucos, a referência deixa de ser quem você é, e passa a ser o quanto você consegue se aproximar desse modelo. E isso gera uma tensão constante: entre autenticidade e performance.

A questão, pra mim, não é fingir que essa pressão não existe. Ela existe, e vai continuar existindo. O ponto é até onde você ainda está escolhendo por você e em que momento você começa a se perder tentando atender um padrão que nunca se estabiliza.

Até que ponto os filtros, edições e procedimentos influenciam na construção de uma autoestima que não é real? Existe um limite saudável?

Os filtros, as edições e os procedimentos não criam uma autoestima falsa por si só o problema começa quando eles deixam de ser ferramentas e passam a ser referência. Existe uma diferença clara entre usar esses recursos para se apresentar melhor e depender deles para se reconhecer.

Hoje, muita gente (eu inclusive) só se sente confortável dentro de uma versão ajustada de si mesma. A imagem editada vira o padrão interno, e o rosto real passa a parecer insuficiente. É aí que a autoestima deixa de ser sólida e passa a ser condicionada ela só existe sob certas condições.

E isso é perigoso porque cria uma desconexão silenciosa. A pessoa começa a viver uma dualidade: uma imagem que ela projeta e outra que ela evita encarar. Com o tempo, essa distância tende a crescer, nunca diminuir.

Sobre limite saudável ele não é técnico, é psicológico. Não tem a ver com quantos filtros você usa, mas com o quanto você depende deles para se sentir válida.

Quando a pessoa ainda se reconhece sem intervenção, quando não sente rejeição pela própria imagem natural, existe um espaço saudável. Quando isso se perde, o uso deixa de ser escolha e passa a ser necessidade.

No fundo, todo mundo quer se olhar no espelho e sentir satisfação com o que vê. Isso é humano. O problema é que, hoje, essa percepção não nasce mais só de dentro ela é constantemente influenciada pelo que está ao nosso redor. A comparação se tornou inevitável. E nem sempre ela acontece no sentido de competir com outra pessoa.

Muitas vezes, é uma disputa silenciosa consigo mesma entre quem você é hoje e quem você sente que poderia ser, ou até quem você já foi em algum momento. Existe uma pressão interna que nem sempre é visível. Uma cobrança por manter padrões, por não “perder” aquilo que o tempo inevitavelmente transforma. E isso gera um conflito constante, porque, por mais que exista cuidado, esforço ou investimento, existe algo que não pode ser totalmente controlado, o tempo.

E é exatamente isso que torna tudo mais complexo, porque não existe pausa. É um diálogo contínuo entre expectativa e realidade.

Como diferenciar autocuidado de uma busca constante por validação externa nas redes sociais?

O autocuidado parte de uma relação interna mais estável. Existe uma intenção de se manter bem, de se sentir alinhada consigo mesma, independentemente da reação dos outros. Já a validação externa depende de retorno. Ela precisa ser confirmada, vista, aprovada.

A diferença entre autocuidado e busca por validação não está no que você faz, mas no motivo por trás.

O problema é que, nas redes sociais, essa linha fica cada vez mais difícil de enxergar. Porque tudo é exposto, tudo é medido, tudo pode ser comparado.

Um bom termômetro é observar o impacto emocional. Quando o cuidado gera tranquilidade, continuidade, consistência tende a ser saudável. Quando gera ansiedade, urgência ou frustração constante provavelmente já deixou de ser escolha e virou dependência de resposta externa.

E o mais delicado é que isso não acontece de forma brusca. É um desvio sutil. Você começa cuidando de si, mas, em algum momento, pode começar a ajustar tudo em função de como aquilo será percebido.

No final, não é sobre parar de se expor ou deixar de se cuidar. É sobre manter clareza suficiente para saber se você ainda está no controle ou se já está reagindo a um sistema que nunca se satisfaz.

Qual o papel da mulher moderna em quebrar esse ciclo de comparação e reconstruir uma autoestima mais autêntica e consciente?

Hoje, o ciclo de comparação se sustenta porque ele é contínuo e inconsciente. As pessoas consomem, absorvem e reproduzem sem perceber. Então, o primeiro movimento não é externo, é interno: desenvolver consciência sobre o que está sendo consumido e o quanto isso está influenciando a nossa própria percepção.

Existe também uma responsabilidade na forma como se posiciona. Cada imagem, cada escolha estética, cada padrão que se reforça ou se desafia contribui para o ambiente coletivo. Não se trata de abandonar a estética, mas de não se tornar refém dela. Reconstruir uma autoestima mais sólida exige consistência. Não é um discurso pontual nem uma decisão momentânea. É uma prática contínua de se reconhecer fora da lógica de comparação constante. E isso inclui aceitar que nem tudo pode ser controlado especialmente o tempo, as mudanças naturais, o envelhecimento.

A mulher que consegue sair desse piloto automático não necessariamente vai parecer diferente das outras, mas vai se relacionar com a própria imagem de forma mais estável. E isso, no longo prazo, é o que realmente rompe o ciclo não pela negação da estética, mas pela forma como ela deixa de ser o centro absoluto.

No final, não é sobre rejeitar os padrões. É sobre não permitir que eles definam completamente quem você é, e eu ainda estou aprendendo isso. Envelhecer não é um processo neutro ele confronta. Existe um momento em que você se olha e percebe que o tempo deixou marcas, e isso não é simples de assimilar. Não é apenas uma mudança física, é uma mudança na forma como você se enxerga.

O desconforto não vem só do espelho, mas do contexto em que estamos inseridas. Vivemos cercadas por referências que valorizam juventude, controle e perfeição constante. Isso cria uma tensão silenciosa, porque enquanto o tempo segue um curso natural, a expectativa ao redor parece ir na direção oposta.

E é aí que surge o conflito. Não se trata de vaidade superficial, como muitos tentam reduzir. Existe uma relação emocional com a própria imagem, construída ao longo dos anos, que passa a ser desafiada. Aceitar essa transição exige maturidade mas também exige honestidade para reconhecer que não é fácil.

A pressão por manter um padrão elevado não diminui com o tempo, ela se transforma. E lidar com isso não é sobre negar o incômodo, mas sobre não permitir que ele se torne a única lente através da qual você se vê.

O que essa conversa revela não é uma fórmula de superação. É algo mais valioso: a voz de quem está dentro do processo, sem fingir que já chegou ao outro lado. Mila Schneider Lavelle fala a partir de um lugar raro no debate sobre imagem feminina, o da mulher que circula entre culturas, enxerga o fenômeno de fora e, ao mesmo tempo, reconhece que também está dentro dele.

Numa era em que algoritmos definem referências e a comparação virou estrutura, a consciência sobre o próprio olhar permanece o ato mais subversivo que uma mulher pode exercer. Não porque resolve tudo. Mas porque é o único ponto de partida que pertence inteiramente a ela.

Siga Mila Schneider Lavelle no Instagram: @milaschneiderlavelle

O Portal Pulsar Brasil é um veículo de comunicação voltado à saúde e ao bem-estar, com produção editorial que alia rigor jornalístico, visão clínica e relevância prática. Mais do que informar, o portal se posiciona como um espaço de referência para quem busca conteúdo qualificado sobre saúde, comportamento e qualidade de vida.

A edição Depoimento nasce como um novo formato dentro dessa proposta. É um espaço dedicado à escuta de profissionais reconhecidos em suas áreas de atuação, que trazem, além de conhecimento técnico, perspectivas genuínas sobre temas que atravessam a vida das pessoas. Aqui, a opinião tem nome, trajetória e responsabilidade.

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