A exposição constante a corpos extremamente magros ou a padrões físicos considerados ideais nas redes sociais pode influenciar a forma como adolescentes e jovens enxergam o próprio corpo. Especialistas alertam que a comparação frequente com imagens publicadas na internet pode contribuir para insatisfação corporal, baixa autoestima e comportamentos alimentares inadequados.
A preocupação ganhou força com a transformação das redes sociais em espaços nos quais aparência, peso e estética recebem grande destaque. Diferentemente dos meios tradicionais, as plataformas digitais permitem que os usuários sejam expostos repetidamente a conteúdos selecionados por algoritmos de acordo com seus interesses e comportamentos.
Segundo a American Psychological Association (APA), adolescentes que utilizam as redes sociais principalmente para fazer comparações relacionadas à aparência apresentam maior risco de desenvolver uma percepção negativa do próprio corpo, comportamentos alimentares desordenados e sintomas depressivos. (APA)
A comparação pode distorcer a percepção sobre o próprio corpo
Durante a adolescência, a identidade e a autoestima ainda estão em desenvolvimento. Nesse período, observar repetidamente pessoas que apresentam um determinado padrão corporal pode fazer com que esse padrão seja interpretado como uma referência de normalidade.
A psicóloga Lisa Damour, citada pela APA, explica que adolescentes são particularmente suscetíveis às normas percebidas socialmente. A exposição repetida a imagens de corpos muito diferentes dos seus pode fazer com que eles passem a enxergar o próprio corpo de maneira diferente e, posteriormente, modificar seus comportamentos. (APA)
O problema não está apenas na magreza. Conteúdos que promovem corpos extremamente musculosos, rotinas exageradas de exercícios ou métodos radicais de emagrecimento também podem contribuir para uma relação pouco saudável com o próprio corpo.
Imagens nas redes nem sempre representam a realidade
Filtros, edição de imagens, iluminação, poses e ferramentas de inteligência artificial podem modificar significativamente a aparência de uma pessoa publicada na internet. Para adolescentes, diferenciar uma imagem natural de uma produção cuidadosamente construída pode ser difícil.
A APA alerta que ferramentas de inteligência artificial também podem ampliar a presença de padrões corporais idealizados e praticamente inalcançáveis, favorecendo comparações prejudiciais entre jovens. (APA)
Além disso, conteúdos relacionados a dietas, perda rápida de peso e exercícios excessivos podem aparecer repetidamente no feed de usuários que demonstram interesse por temas relacionados à aparência.
O risco não depende apenas do tempo de tela
Um ponto importante levantado por especialistas é que não basta avaliar somente quantas horas o adolescente passa conectado. O tipo de conteúdo consumido também importa.
Uma revisão citada pela APA analisou estudos sobre redes sociais, imagem corporal e transtornos alimentares e encontrou associação mais forte entre resultados negativos e experiências como conteúdos relacionados à alimentação desordenada, aparência física e plataformas centradas em fotografias. Jovens que já apresentavam preocupações com o próprio corpo pareciam particularmente vulneráveis. (APA)
Um estudo experimental publicado em Psychology of Popular Media também observou que jovens de 17 a 25 anos que reduziram o uso de redes sociais para uma hora por dia durante quatro semanas apresentaram melhora na percepção sobre aparência e peso em comparação ao grupo que manteve o uso habitual. (APA)
Como reduzir o impacto
Especialistas recomendam que famílias e educadores conversem com adolescentes sobre a diferença entre realidade e conteúdo produzido para as redes. Também é importante incentivar uma visão mais ampla de saúde, que não esteja baseada exclusivamente no peso ou na aparência.
A APA recomenda que adolescentes desenvolvam habilidades de alfabetização digital para questionar a representatividade das imagens encontradas nas redes, reconhecer conteúdos manipulados e reduzir comparações relacionadas à aparência. (APA)
Mudanças persistentes no comportamento alimentar, preocupação excessiva com peso e aparência, exercícios compulsivos ou sofrimento significativo relacionado ao próprio corpo merecem atenção profissional.
A busca por um determinado padrão estético pode parecer apenas uma tendência nas redes sociais, mas, para alguns jovens, a exposição contínua a esses conteúdos pode interferir na autoestima e na relação com o próprio corpo. Por isso, especialistas defendem que saúde e bem-estar não sejam definidos por um único modelo físico apresentado na internet.