Falar dois ou mais idiomas pode estar associado a um envelhecimento mais saudável do cérebro. Pesquisas recentes indicam que o multilinguismo pode contribuir para mecanismos de reserva cognitiva, ajudando algumas pessoas a manter determinadas funções cognitivas mesmo com o avanço da idade.
Um dos estudos mais amplos sobre o tema foi publicado em 2025 na revista científica Nature Aging. Pesquisadores analisaram 86.149 pessoas de 27 países europeus e observaram que o multilinguismo estava associado a menor risco de apresentar uma trajetória de envelhecimento acelerado. (Nature)
De onde surgiu a ideia dos “13 anos”?
A informação de que pessoas multilíngues teriam um cérebro “13 anos mais jovem” precisa ser interpretada com cuidado.
O estudo não demonstrou que aprender idiomas literalmente rejuvenesce o cérebro em 13 anos. Os pesquisadores criaram uma medida chamada “biobehavioral age gap”, que estima diferenças entre a idade cronológica e uma idade relacionada a diversos indicadores de saúde e funcionamento.
Por isso, transformar o resultado em uma afirmação de que “falar vários idiomas deixa o cérebro 13 anos mais jovem” é uma simplificação do achado científico.
Por que os idiomas podem beneficiar o cérebro?
Uma das hipóteses é que alternar constantemente entre idiomas exige atenção, controle cognitivo e capacidade de selecionar informações relevantes.
Esse exercício mental contínuo pode contribuir para o desenvolvimento de reserva cognitiva, conceito utilizado para explicar por que algumas pessoas conseguem manter um bom funcionamento cognitivo mesmo diante de alterações relacionadas ao envelhecimento.
Pesquisas anteriores também encontraram diferenças na organização e no funcionamento cerebral de pessoas bilíngues. Um estudo publicado na Communications Biology em 2024, por exemplo, identificou maior eficiência global de redes cerebrais em participantes bilíngues, especialmente relacionada à integração entre diferentes regiões do cérebro. (Nature)
Mas a ciência ainda não é unânime
Apesar dos resultados promissores, não é possível afirmar que falar vários idiomas seja uma garantia contra demência ou declínio cognitivo.
Um estudo publicado em 2026 no periódico Memory & Cognition encontrou efeitos protetores limitados do multilinguismo sobre o declínio cognitivo relacionado à idade. Depois de considerar fatores como idade e escolaridade, muitos dos efeitos observados deixaram de ser estatisticamente consistentes. (PubMed)
Outra pesquisa publicada em 2026, com mais de 4 mil adultos, também encontrou resultados mais específicos: o bilinguismo esteve associado a uma menor velocidade de declínio da memória episódica, mas não apresentou associação longitudinal semelhante para funções executivas. (PubMed)
Então vale a pena aprender outro idioma?
Sim — mas não apenas pensando em “rejuvenescer o cérebro”.
Aprender e utilizar outro idioma pode proporcionar estimulação intelectual, interação social, aprendizado contínuo e treinamento de atenção e memória. Esses fatores fazem parte de um estilo de vida cognitivamente ativo, que pode contribuir para um envelhecimento mais saudável.
O principal ponto é que não existe atualmente uma fórmula capaz de garantir que falar determinado número de idiomas evitará Alzheimer ou outras doenças neurodegenerativas.
A evidência mais recente sugere que o multilinguismo pode ser um dos vários fatores associados à saúde cognitiva ao longo da vida — e não uma “cura” ou método comprovado para deixar o cérebro literalmente anos mais jovem. (Nature)