Entrevista | Portal Pulsar Brasil
Rute do Carmo Rocha chegou a São Paulo ainda muito jovem. Trabalhava em diferentes atividades durante o dia e cursava Direito à noite, movida pela convicção de que aquela formação poderia reescrever a sua própria história. Vinda de uma família simples, tornou-se a primeira entre os seus a concluir uma graduação, conquista que até hoje orienta a forma como enxerga a profissão: cada processo, para ela, guarda a história de alguém.
Foi no Direito Público que consolidou sua carreira. Durante anos, atuou intensamente em demandas contra a Fazenda Pública, sobretudo envolvendo o Município de São Paulo, e no universo dos precatórios, terreno técnico e pouco compreendido no qual servidores, aposentados e empresas aguardam, muitas vezes por anos, valores já reconhecidos pela Justiça.
Nesta entrevista ao Portal Pulsar Brasil, a advogada explica o que são os precatórios, aponta os cuidados indispensáveis a quem tem créditos a receber do poder público, analisa o impacto da tecnologia sobre a advocacia e revela a guinada que a aproximou do Direito de Família, área à qual hoje dedica parte expressiva de sua atuação.
Como começou sua trajetória na advocacia e quais experiências foram mais importantes para a construção da profissional que você é hoje?
Minha trajetória na advocacia é resultado de uma construção que começou muito antes da faculdade de Direito. Venho de uma família simples, comecei a trabalhar muito cedo e, como tantas pessoas que precisam conciliar trabalho e estudo, construí meu caminho com bastante esforço e persistência.
Quando cheguei a São Paulo, ainda muito jovem, trabalhei em diferentes atividades e estudava à noite. A graduação em Direito representava não apenas uma formação profissional, mas também a possibilidade de transformar a minha própria história. Fui a primeira pessoa da minha família a concluir uma graduação, e isso tem um significado muito especial para mim.
Depois de formada, a advocacia me apresentou uma realidade muito mais complexa do que aquela que encontramos nos livros. Foram os processos, os clientes, os desafios e, principalmente, a responsabilidade de lidar com problemas reais das pessoas que contribuíram para a construção da profissional que sou hoje.
Acredito que uma das experiências mais importantes da minha trajetória foi compreender que conhecimento técnico é indispensável, mas não é suficiente. O advogado precisa saber ouvir, compreender o contexto de cada pessoa e assumir a responsabilidade que existe por trás de cada processo. Por isso, procuro exercer uma advocacia estratégica, técnica, mas também verdadeiramente humana.
Sua atuação envolve demandas relacionadas à Fazenda Pública, municípios e precatórios. O que despertou seu interesse por essa área do Direito?
Meu interesse por essa área surgiu muito da experiência prática. Ao longo da minha trajetória profissional, tive a oportunidade de atuar intensamente em demandas envolvendo a Administração Pública, especialmente questões relacionadas ao Município de São Paulo.
É uma área que exige bastante conhecimento técnico, porque envolve legislação específica, procedimentos próprios e uma dinâmica processual diferente daquela encontrada em demandas entre particulares. Além disso, existe uma particularidade importante: quando alguém litiga contra o poder público, muitas vezes enfrenta uma estrutura muito maior e mais complexa.
Isso sempre despertou em mim um interesse especial. Acredito que a advocacia tem também esse papel de equilibrar relações e garantir que o cidadão tenha seus direitos efetivamente reconhecidos e respeitados.
A atuação com precatórios surgiu dentro desse contexto. É uma área extremamente técnica, mas que, ao mesmo tempo, tem um impacto muito concreto na vida das pessoas, especialmente quando falamos de servidores públicos, aposentados e pessoas que aguardam há anos o recebimento de valores que já foram reconhecidos judicialmente.

Para quem não está familiarizado com o tema, o que são precatórios e quais são os principais desafios enfrentados por quem tem valores a receber do poder público?
De forma simples, o precatório é uma requisição de pagamento expedida quando uma pessoa ou empresa possui um crédito reconhecido definitivamente pela Justiça contra um ente público, como a União, um Estado ou um Município, observadas as regras constitucionais e legais aplicáveis.
Mas existe uma questão importante: ganhar o processo não significa, necessariamente, receber imediatamente.
Depois do reconhecimento do direito, inicia-se uma nova etapa, que envolve procedimentos administrativos e orçamentários próprios para o pagamento desses valores. Dependendo do caso, o credor pode enfrentar uma espera significativa.
Os principais desafios estão justamente na complexidade desse sistema. Muitas pessoas não sabem em que fase está o seu crédito, não compreendem a ordem de pagamento, desconhecem a existência de regras específicas ou acabam recebendo informações incompletas.
Por isso, acredito que a informação é fundamental. O credor precisa entender que um precatório não é apenas um número ou um documento. Por trás dele existe uma história, um processo judicial e, muitas vezes, uma expectativa construída ao longo de anos.
Quais são os principais cuidados que uma pessoa deve ter ao buscar informações ou assessoria jurídica sobre um precatório ou uma demanda contra o poder público?
O primeiro cuidado é buscar informações confiáveis. Infelizmente, a complexidade dos precatórios faz com que muitas pessoas não compreendam exatamente a situação do seu crédito e, por isso, possam se tornar vulneráveis a informações equivocadas ou até mesmo a propostas que não são vantajosas.
É importante verificar a situação processual, compreender a origem do crédito, identificar corretamente o valor envolvido e entender quais são as regras aplicáveis ao caso concreto.
Também considero essencial buscar orientação de um profissional que realmente tenha conhecimento e experiência na área. Cada processo possui particularidades, e uma análise responsável não pode ser feita apenas com base em informações genéricas.
Outro ponto importante é desconfiar de promessas de recebimento rápido ou de soluções milagrosas. O advogado deve apresentar ao cliente a realidade jurídica do caso, com clareza e transparência, inclusive explicando os riscos, os prazos e as possibilidades existentes.

Sua experiência em processos judiciais proporciona uma visão ampla sobre o funcionamento do Judiciário. Quais foram os principais aprendizados que essa vivência trouxe para sua prática profissional?
A prática me ensinou, apesar de tudo, que o processo não pode ser tratado apenas como um conjunto de prazos e documentos. Por trás de cada ação existe uma pessoa que está enfrentando um problema e que, muitas vezes, deposita naquele processo uma expectativa muito grande.
Tecnicamente, aprendi a importância da estratégia e do estudo constante. Cada processo exige uma análise individual. Não acredito em advocacia automática ou em soluções prontas para situações diferentes.
Também aprendi que a advocacia exige paciência e responsabilidade. Nem sempre o resultado acontece no tempo que o cliente gostaria, e o papel do advogado é justamente explicar cada etapa, administrar expectativas e conduzir o caso com seriedade.
Outro grande aprendizado foi compreender a importância da comunicação. Um excelente trabalho jurídico pode perder parte do seu valor se o cliente não entender o que está acontecendo. Por isso, procuro traduzir o juridiquês e tornar o processo mais compreensível para quem confiou em mim.
Quais são, hoje, os maiores desafios para o advogado que atua em processos envolvendo o poder público e como você lida com eles?
Um dos maiores desafios é justamente a complexidade. Os processos envolvendo o poder público possuem regras próprias, prazos específicos e procedimentos que exigem constante atualização.
Além disso, existe a própria dimensão da Administração Pública. Muitas vezes, estamos diante de processos longos, estruturas burocráticas e questões que dependem de diferentes órgãos.
Para lidar com isso, acredito que o caminho é estudo, organização e estratégia. É fundamental acompanhar as mudanças legislativas e jurisprudenciais e, principalmente, conhecer profundamente cada processo.
Também considero essencial ter uma atuação organizada. A advocacia moderna exige controle de prazos, acompanhamento processual constante e uma gestão eficiente das informações. Não basta apenas conhecer o Direito; é preciso saber administrar a rotina profissional.

Com a digitalização dos processos e o avanço das ferramentas tecnológicas, como a tecnologia tem transformado a rotina da advocacia e o relacionamento entre advogado e cliente?
A tecnologia transformou profundamente a advocacia. Hoje, conseguimos atuar em processos de diferentes regiões, realizar reuniões a distância, acompanhar movimentações processuais com muito mais agilidade e oferecer uma comunicação mais acessível aos clientes.
Isso ampliou muito as possibilidades de atuação. A distância física deixou de ser, em muitos casos, um obstáculo para o acesso ao advogado.
Ao mesmo tempo, acredito que a tecnologia não substitui o olhar humano. Ela deve ser utilizada como uma ferramenta para melhorar o trabalho, aumentar a eficiência e facilitar a comunicação, mas a análise jurídica, a estratégia e, principalmente, a relação de confiança com o cliente continuam sendo essenciais.
Vejo a tecnologia como uma grande aliada, desde que utilizada com responsabilidade. A advocacia precisa acompanhar as transformações do mundo, sem perder aquilo que é essencial na profissão: a ética, a responsabilidade e a confiança.
Você construiu uma trajetória importante no Direito Público, especialmente em demandas envolvendo a Fazenda Pública e municípios, mas também se especializou e vem atuando no Direito de Família. Como aconteceu essa mudança e o que essa nova área representa para você?
Minha trajetória profissional foi construída, durante muitos anos, com uma atuação muito intensa no Direito Público. Foi uma área que me proporcionou uma experiência extremamente rica, especialmente pela complexidade das demandas, pelo volume de processos e pela necessidade de compreender profundamente o funcionamento da Administração Pública e do próprio Judiciário.
Mas, ao longo da minha caminhada, comecei a perceber que o Direito de Família despertava em mim um interesse diferente. São processos que exigem técnica jurídica, mas também exigem muita sensibilidade, escuta e responsabilidade. Por trás de uma ação de divórcio, guarda, alimentos ou reconhecimento de direitos familiares, existem histórias, relações e, muitas vezes, pessoas vivendo momentos extremamente delicados.
Foi por isso que decidi me especializar na área. E, quanto mais comecei a atuar, mais percebi que essa era uma área com a qual eu realmente me identificava.
Eu costumo dizer que, em certa medida, não fui eu quem escolheu o Direito de Família; foi o Direito de Família que me encontrou. Minha experiência anterior no Direito Público me trouxe uma base muito importante de organização, estratégia e atuação processual, e hoje consigo levar essa bagagem para uma área em que o conhecimento técnico precisa caminhar ao lado de uma atuação verdadeiramente humana.
Atualmente, venho dedicando uma parte muito importante da minha atuação ao Direito de Família, e vejo essa fase como um processo de crescimento e de construção profissional. Não significa abandonar tudo o que construí no Direito Público, bem como em outros ramos, mas ampliar a minha atuação e permitir que a minha carreira também acompanhe aquilo que, ao longo do tempo, passei a compreender como parte da profissional que quero ser.
Olhando para os próximos anos, quais mudanças você acredita que vão impactar a advocacia e quais são seus planos e objetivos para essa nova fase da carreira?
Acredito que a advocacia passará por uma transformação cada vez mais intensa nos próximos anos. A tecnologia, a inteligência artificial e a digitalização dos serviços jurídicos já estão modificando a forma como trabalhamos.
Por isso, acredito que o advogado do futuro precisará ir além do conhecimento tradicional. Será necessário desenvolver capacidade estratégica, comunicação, gestão e adaptação às novas ferramentas.
Ao mesmo tempo, acredito que, justamente em um cenário cada vez mais tecnológico, a advocacia humana ganhará ainda mais importância. As pessoas não procuram apenas informações jurídicas; elas procuram alguém capaz de analisar o seu caso, compreender as suas particularidades e ajudá-las a tomar decisões importantes.
Quanto aos meus planos, estou vivendo uma fase de construção e amadurecimento profissional. Quero continuar me especializando, fortalecendo a minha atuação e construindo uma advocacia cada vez mais alinhada com aquilo em que acredito: técnica, estratégica e humana.
Minha trajetória me ensinou que a carreira não precisa seguir um caminho pronto. Eu construí a minha história passo a passo, e pretendo continuar fazendo isso: estudando, evoluindo, assumindo novos desafios e buscando construir uma atuação da qual eu possa me orgulhar.

Ao revisitar o próprio percurso, Rute do Carmo Rocha mostra que uma carreira sólida não precisa seguir um roteiro predefinido. Das aulas noturnas aos embates com a Administração Pública, e agora às delicadas questões familiares, sua advocacia preserva o mesmo eixo que a conduziu desde o início, definido por ela como técnica, estratégica e humana. Em um tempo de processos digitais e inteligência artificial, a advogada aposta justamente naquilo que nenhuma ferramenta é capaz de substituir: a escuta atenta e a confiança de quem entrega ao advogado um pedaço da própria história.
Foto: @risnicfotografia