Dra. Thaíssa Pandolfi explica por que o diagnóstico TDAH em mulheres costuma ser tardio e como os sintomas podem se manifestar de forma diferente
O relato recente da cantora Ana Castela, de 22 anos, sobre ter recebido diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção reacendeu uma discussão importante sobre como esse transtorno pode se manifestar de maneiras diferentes, especialmente nas mulheres.
Em vídeos publicados nas redes sociais após uma consulta médica, a artista relatou a sensação de finalmente compreender comportamentos que a acompanhavam há anos. “Agora minha vida fez sentido”, disse aos seguidores.
O comentário também levantou dúvidas comuns sobre a diferença entre TDA e TDAH. Atualmente, na classificação psiquiátrica, o termo utilizado é Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), descrito no DSM-5-TR. O que varia não é o diagnóstico em si, mas a forma de apresentação dos sintomas, que pode ocorrer de três maneiras principais.
Segundo a psiquiatra Dra. Thaíssa Pandolfi, especialista em neurodivergência feminina, compreender essas diferenças é essencial para explicar por que tantas mulheres só recebem diagnóstico na vida adulta. “Muitas pessoas ainda imaginam que o TDAH está sempre associado a hiperatividade física intensa. Mas o transtorno pode se apresentar de formas diferentes, e nas mulheres a hiperatividade muitas vezes é mais interna, mental e emocional, o que faz com que o diagnóstico passe despercebido por muitos anos”, explica.
Os três subtipos de apresentação do TDAH
De acordo com os critérios diagnósticos descritos no DSM-5-TR, o TDAH pode se manifestar em três apresentações clínicas principais.
- TDAH predominantemente desatento
Nesse tipo de apresentação, os sintomas estão mais relacionados à dificuldade de manter atenção sustentada e de organizar tarefas. Entre os sinais mais comuns estão distração frequente, esquecimento de compromissos, dificuldade para concluir atividades, perda de objetos e sensação de mente constantemente dispersa.
Essa forma do transtorno é particularmente comum em mulheres. Como não envolve necessariamente agitação física ou comportamento impulsivo evidente, muitas meninas são vistas apenas como “distraídas”, “sonhadoras” ou “desorganizadas”, sem que se investigue um transtorno do neurodesenvolvimento.
- TDAH predominantemente hiperativo-impulsivo
Nessa apresentação predominam sintomas de inquietação motora, impulsividade e dificuldade em permanecer parado ou esperar turnos. Em crianças, isso costuma aparecer como agitação física intensa, dificuldade em permanecer sentado ou tendência a interromper conversas.
Em mulheres adultas, porém, essa hiperatividade frequentemente se manifesta de forma diferente. Em vez de movimento físico evidente, é comum observar hiperatividade mental, caracterizada por fluxo acelerado de pensamentos, sensação constante de mente ativa, dificuldade para “desligar” o pensamento e tendência a iniciar várias ideias ou projetos ao mesmo tempo.
“Muitas mulheres descrevem a experiência de ter uma mente que nunca desacelera. Elas relatam pensamentos simultâneos, dificuldade para relaxar mentalmente e sensação de estar sempre processando várias informações ao mesmo tempo. Essa hiperatividade interna muitas vezes não é reconhecida como parte do TDAH”, explica Dra. Thaíssa.
- TDAH apresentação combinada
Na apresentação combinada, estão presentes tanto sintomas de desatenção quanto de hiperatividade e impulsividade. Essa é considerada a forma mais clássica do transtorno e costuma ser mais facilmente identificada na infância, especialmente em meninos.
Entretanto, mesmo nessa apresentação, mulheres frequentemente aprendem desde cedo a camuflar comportamentos impulsivos, utilizando esforço excessivo para manter organização, controle emocional e desempenho acadêmico.
Durante décadas, a maior parte dos estudos sobre TDAH foi realizada com meninos em idade escolar, que apresentam sintomas mais visíveis de hiperatividade. Como consequência, o perfil feminino acabou sendo pouco reconhecido na prática clínica.
Além disso, muitas meninas desenvolvem estratégias compensatórias para lidar com as dificuldades. Elas podem estudar intensamente antes das provas, depender de pressão de prazo para concluir tarefas ou utilizar esforço cognitivo elevado para manter organização.
Embora essas estratégias possam funcionar por algum tempo, elas frequentemente geram alto custo emocional, incluindo ansiedade, exaustão mental e sensação persistente de inadequação. “O que vemos com frequência na clínica são mulheres extremamente inteligentes, curiosas e reflexivas que passaram anos acreditando que tinham apenas dificuldade de organização ou excesso de pensamentos. Quando recebem o diagnóstico, muitas relatam uma sensação profunda de compreensão da própria história”, afirma Dra. Thaíssa Pandolfi.
Receber o diagnóstico de TDAH na vida adulta não significa que o transtorno surgiu naquele momento. Na maioria dos casos, trata-se de um funcionamento neurobiológico presente desde a infância que só foi reconhecido mais tarde.
Segundo a psiquiatra, compreender o próprio funcionamento mental pode transformar a maneira como a pessoa se relaciona com suas dificuldades. “Quando alguém entende como sua mente opera, deixa de interpretar certos desafios como falha pessoal. O diagnóstico permite reorganizar a rotina, criar estratégias de manejo da atenção e desenvolver mais gentileza consigo mesma”, explica.
O tratamento pode envolver psicoeducação, estratégias cognitivas de organização, acompanhamento psicoterapêutico e, em alguns casos, tratamento medicamentoso.
Mais do que um rótulo, o diagnóstico costuma representar um ponto de partida para autoconhecimento e cuidado. “Para muitas mulheres, descobrir o TDAH significa revisitar a própria trajetória com mais compreensão. Situações que antes eram vistas como falta de esforço passam a ser entendidas como parte de um funcionamento mental específico. E isso abre caminho para novas formas de viver com mais autonomia e equilíbrio”, conclui Dra. Thaíssa Pandolfi.