O resultado chega pelo aplicativo do laboratório antes mesmo de o paciente chegar ao consultório. LDL alto, HDL baixo, triglicérides elevados. Em segundos, a leitura autônoma começa: memória de algo que o médico disse numa consulta anterior, artigo lido há meses, comentário de familiar que “tinha o mesmo problema”. O colesterol virou tema de autodiagnóstico, e com isso veio uma confusão considerável sobre o que esses valores realmente significam.
Colesterol não é veneno. É uma molécula essencial para o funcionamento do organismo: compõe a membrana de todas as células, participa da síntese de hormônios esteroides, da vitamina D e dos ácidos biliares. O problema não é a existência do colesterol, mas o desequilíbrio entre as frações e o contexto clínico em que esse desequilíbrio ocorre. Um LDL de 140 mg/dL tem significado completamente diferente em um jovem saudável sem outros fatores de risco e em um paciente que já teve infarto.
O risco cardiovascular não é calculado por um número isolado. É resultado de uma equação que inclui pressão arterial, glicemia, tabagismo, histórico familiar, idade, sexo e presença de doenças como diabetes e doença renal. Escalas de risco validadas, como o escore de Framingham e o PCE americano, existem justamente para traduzir essa combinação de variáveis em uma estimativa de probabilidade de evento cardiovascular nos próximos anos. É a partir daí que a decisão de tratar, e como tratar, é tomada.
As estatinas, classe de medicamentos mais prescrita para o controle do LDL, têm eficácia e segurança amplamente documentadas. A resistência ao uso, alimentada por desinformação que circula com facilidade nas redes sociais, leva pacientes a interromperem tratamentos que protegem de forma concreta contra infarto e AVC. O efeito dessa interrupção não aparece no dia seguinte. Aparece anos depois, quando o evento que poderia ter sido prevenido não foi.
Entender o próprio exame é um direito do paciente. Decidir sozinho o que fazer com ele é um risco que o exame não avisa.