A obesidade tornou-se um desafio crítico na medicina veterinária contemporânea, afetando cerca de 60% dos cães e gatos ao redor do mundo. Em um cenário onde o excesso de peso compromete a longevidade e a qualidade de vida dos animais, pesquisadores buscam inovações para tornar o diagnóstico e o acompanhamento nutricional mais precisos, superando as limitações das avaliações subjetivas realizadas em consultórios.
Atualmente, a rotina clínica baseia-se na pesagem e na palpação física para identificar depósitos de gordura ou perda de massa muscular. Contudo, essa metodologia carece de dados quantitativos detalhados. Para mudar esse panorama, estudos acadêmicos estão adaptando tecnologias consagradas na medicina humana para a realidade dos pets, visando um controle mais rigoroso da composição corporal.
Tecnologia de precisão na avaliação corporal
O foco das pesquisas recai sobre o Dexa, um exame de absorciometria de raios X de dupla energia amplamente utilizado em humanos. O procedimento funciona como um raio-X avançado, capaz de mapear a distribuição exata de massa óssea, muscular e gordura no organismo. Essa distinção é fundamental, pois animais com o mesmo peso podem apresentar composições corporais drasticamente diferentes, exigindo abordagens terapêuticas distintas.
A aplicação dessa tecnologia foi tema de destaque em congressos internacionais, como o da Sociedade Europeia de Nutrição Veterinária e Comparativa. A médica-veterinária Laís Oyama Cotrim Lima, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), foi reconhecida com o prêmio AAVM-Waltham por investigar como o Dexa pode monitorar a saúde de gatos, inclusive aqueles com condições crônicas.
Monitoramento de doenças crônicas e nutrição
A pesquisa comparou a composição corporal de gatos saudáveis com felinos portadores de doença renal crônica em estágio inicial. O objetivo é identificar uma “janela de oportunidade” para intervir antes que o animal apresente caquexia, um quadro caracterizado pela perda extrema de peso e fraqueza muscular severa. O Dexa permite observar essas alterações precocemente, permitindo ajustes dietéticos mais eficazes.
O desafio nutricional é complexo: equilibrar a oferta de proteína para preservar a massa muscular sem sobrecarregar os rins debilitados. A avaliação nutricional, considerada um dos cinco parâmetros vitais pela Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais, torna-se muito mais assertiva quando o profissional consegue distinguir se o emagrecimento do paciente ocorre pela queima de gordura ou pela perda de tecido muscular.
Desafios para a implementação clínica
Apesar do potencial promissor, a transição do Dexa para a prática clínica diária enfrenta barreiras logísticas. O alto custo do equipamento e a disponibilidade restrita em hospitais veterinários limitam, por ora, o uso da tecnologia ao ambiente acadêmico. O estudo, realizado no Centro de Pesquisa em Nutrologia de Cães e Gatos da FMVZ-USP em parceria com a PremieRpet, continua a pavimentar o caminho para que, futuramente, essa ferramenta possa integrar o arsenal de combate à obesidade animal.