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Dr. Diogo Viana alerta que o lipedema é definido pela dor, não pela aparência das pernas: “Epidemia de diagnósticos errados” 

Médico desmistifica o apelo visual das redes sociais e alerta sobre o uso perigoso de esteroides anabolizantes vendidos como tratamento para uma doença crônica que exige diagnóstico clínico e foco no alívio do sofrimento. 

A busca por pernas esculpidas e soluções milagrosas transformou as redes sociais em um terreno fértil para o superdiagnóstico do lipedema. Padrões visuais como pernas grossas, celulite ou gordura resistente ao emagrecimento passaram a ser rotulados como a doença. No entanto, especialistas alertam que a aparência engana e pode levar a tratamentos danosos.  

Nos últimos anos, Dr. Diogo Viana, médico pesquisador, mestre em Ginecologia pela UNIFESP, vice-presidente da SBEMO (Sociedade Brasileira de Medicina da Obesidade) e presidente da SBAM, se tornou uma das maiores vozes contra a estetização do lipedema. Com pesquisas focadas nas causas e nos mecanismos da dor tecidual, o especialista explica que a chave para o diagnóstico da condição não está no espelho, mas nos sintomas clínicos reais.  

Em entrevista, o médico detalha como diferenciar o lipedema de outras condições do tecido adiposo, os perigos do autodiagnóstico pelas redes e o caminho seguro para a saúde feminina.  

O que, de fato, deve levantar a suspeita de lipedema e o que pode ser apenas uma característica corporal? 

Vivemos hoje uma epidemia de diagnósticos errados de lipedema, e ela não é inocente. Ela é motivada por promessas de cura, protocolos de treino, dietas milagrosas e, principalmente, pelo uso de hormônios vendidos como tratamento. Circulam “antes e depois” impossíveis para uma doença que, por definição, não tem cura. Muitos desses casos mostrados na internet sequer são lipedema. E o efeito colateral mais cruel disso recai sobre as mulheres que realmente têm a doença, pois elas veem resultados que jamais alcançarão e isso gera gatilho, frustração e sofrimento real. Boa parte do “número explosivo” de casos que vemos hoje se deve simplesmente a erro diagnóstico.  

Lipedema não se define pela aparência. A aparência confunde. Celulite, obesidade, lipohipertrofia e o próprio padrão feminino fisiológico de acúmulo de gordura podem parecer idênticos ao lipedema. O que define o caso, segundo o consenso alemão S2k de 2024 e o consenso Delphi de 2025, é o conjunto: desproporção corporal, simetria, refratariedade ao déficit calórico, surgimento nos marcos hormonais da vida da mulher (puberdade, gestação, menopausa) e, como critério diferencial, a dor. A dor é o marcador que só o lipedema tem. A análise visual não serve para diagnosticar; ela serve para estadiar a gravidade de um caso que já foi definido pela dor. 

Quais são as principais diferenças entre lipedema, lipohipertrofia, obesidade ginóide e celulite? Existe algum sinal visual que realmente tenha valor diagnóstico? 

Visualmente, todas se parecem, e muito. Não existe um critério visual que, isoladamente, determine um caso de lipedema. O que o lipedema tem de relativamente característico, em alguns casos, é o chamado sinal do garrote (cuff sign), uma demarcação nítida nos punhos e tornozelos, separando a região acometida pela gordura doente da região poupada. Mãos e pés ficam de fora, formando um “garrote” bem delimitado. É um sinal que fortalece a suspeita, mas que sozinho, sem dor, não define a doença.  

A diferença real entre essas condições não está no espelho, está na história clínica e no sintoma. Lipohipertrofia é, essencialmente, um lipedema sem dor: mesma distribuição, sem o sofrimento tecidual. Obesidade ginóide responde ao déficit calórico. Celulite é alteração da superfície, não do compartimento. O lipedema é o único que dói.  

Você explicou que dor é um elemento indispensável para caracterizar o lipedema. É possível uma pessoa ter a doença sem apresentar dor ou outros sintomas evidentes? 

Os consensos atuais são claros, dor é critério obrigatório para a definição do caso. Sem dor, não há como diferenciar o lipedema das demais condições do tecido adiposo. Não existe marcador, exame ou padrão visual que faça essa distinção. Todas se parecem. É exatamente por isso que minha linha de pesquisa defende o princípio “dor, não aparência” como eixo diagnóstico.  

E essa dor tem várias faces: dor espontânea, dor ao toque, dor à palpação, hipersensibilidade, sensação de queimação. Nossos dados de revisão sistemática mostram, inclusive, que o fenótipo predominante é o de sensibilização central, presente na grande maioria das pacientes. Isso reforça que estamos diante de uma doença dolorosa de verdade, com mecanismo próprio, e não de uma questão estética. 

Além da dor, quais sintomas devem ser investigados durante uma consulta médica para diferenciar a doença? 

Vários elementos compõem o quadro, como o sinal do garrote; o acúmulo de gordura em regiões específicas, como o fat pad atrás dos joelhos e na face interna das coxas; hematomas frequentes com traumas mínimos; sensação de peso e pressão nas pernas; e, muito importantes, os nódulos dolorosos palpáveis na gordura e a presença de fibrose. Esses dois últimos são os que mais ajudam no estadiamento clínico da gravidade, que classificamos em níveis 1, 1.5, 2, 2.5 e 3, conforme a nova caracterização de estágios proposta por Al-Ghadban e colaboradores (revista Life, 2025), que acrescentou os níveis intermediários 1.5 e 2.5 à classificação clássica. 

Esses achados ajudam a diferenciar o lipedema de outras condições e, principalmente, a graduar o caso. Mas repito: eles estadiam e caracterizam um caso já definido pela dor. Nenhum deles, isoladamente, fecha o diagnóstico.  

Existe um padrão de distribuição da gordura característico? Como não transformar o formato de perna em um falso diagnóstico? 

Esse é o maior dilema do lipedema hoje. Não existe uma definição de padrão de distribuição, nem características visuais, que sozinhas definam um caso. Outras doenças e até a fisiologia feminina normal podem apresentar exatamente o mesmo padrão. É essa confusão que gera o superdiagnóstico, infla os números e distorce a percepção pública da doença.  

E há um agravante sério com esse superdiagnóstico visual sendo usado, de forma errada, para justificar prescrição de “hormônios para lipedema”. Preciso ser categórico: não existe nenhum dado, nenhuma associação e nenhuma indicação para o uso de esteroides anabolizantes no lipedema. O que a ciência investiga é como o lipedema é notavelmente semelhante a doenças ginecológicas, as progestinas são hoje um alvo terapêutico em pesquisa. Pesquisa, não promessa comercial.  

Por que o diagnóstico do lipedema permanece essencialmente clínico, sem depender de exames laboratoriais ou de imagem? 

Porque só o exame clínico acessa aquilo que define e gradua a doença. Na palpação, o médico identifica a presença dos nódulos, o tamanho deles, o padrão de distribuição da fibrose, as regiões acometidas e, sobretudo, reproduz e caracteriza a dor. Nenhum exame de imagem tem, até hoje, critérios bem estabelecidos para nada disso.  

Não há exame de sangue, marcador biológico ou teste específico validado. E é exatamente por isso que a dor ocupa o lugar que ocupa, ela é o único critério que só o lipedema tem e que, portanto, define o caso. Enquanto a ciência não entrega um biomarcador, e é nessa direção que minha pesquisa de doutorado caminha, investigando o lipedema como uma doença estromal hormônio-sensível, é a clínica que manda.  

Quais são os perigos de tentar se autodiagnosticar pelas redes sociais e iniciar tratamentos por conta própria? 

O fenômeno atual é curioso e preocupante. A resposta está nas promessas das redes sociais, que transformaram o diagnóstico de lipedema numa espécie de chancela para o uso de esteroides anabolizantes e hormônios. E ele não é isso.  

Muitas mulheres que têm apenas dificuldade de definir as pernas, ou um acúmulo de gordura absolutamente fisiológico, se convencem de que têm a doença e entram em tratamentos hormonais errados, embaladas por promessas infundadas. Daí nascem dois problemas. O primeiro: as que usam hormônios sem indicação podem ter efeitos colaterais como acne, queda de cabelo e piora estética. O segundo é mais perverso: as que não têm lipedema, usam e “melhoram” criam uma falsa expectativa nas que realmente têm a doença, que não vai melhorar com anabolizantes. O resultado é gatilho e sofrimento nas verdadeiras portadoras. 

O lipedema costuma coexistir com a obesidade ou com doenças ginecológicas? Como o médico atua nesses cenários complexos? 

Pode, e é a regra. Em cerca de 80% dos casos, lipedema e obesidade coexistem. E há uma razão trágica para isso, a mulher com lipedema passa a vida tentando emagrecer sem conseguir nas pernas, entra no efeito sanfona, e a obesidade acaba se sobrepondo à doença de base. Separar os dois componentes é essencial porque cada um tem seu tratamento.  

E aqui trago um dado da minha pesquisa que muda a forma de olhar essa paciente. Na minha tese de mestrado mostramos que o lipedema vem associado a doenças ginecológicas em 76% dos casos, e a mais frequente é a endometriose. São doenças notavelmente semelhantes em seus mecanismos. Diante de qualquer doença ginecológica, todo médico deveria rastrear lipedema com uma pergunta simples: “sua perna dói?”. E o inverso também, diante de uma mulher com lipedema, perguntar sempre por queixas ginecológicas. Isso fortalece o diagnóstico e orienta escolhas terapêuticas. 

 O médico explica que a conscientização sobre o lipedema exige abandonar falsas promessas visuais e focar no restabelecimento do bem-estar. Apesar de ser uma condição de saúde crônica, sem cura, o controle adequado devolve a funcionalidade, reduz a dor e renova a qualidade de vida da paciente.  

Para acompanhar discussões científicas atualizadas, orientações de saúde e divulgação de pesquisas na área, siga o Dr. Diogo Viana no Instagram: @dr.diogoviana 

Foto: @reisaudiovisual @luisfelipemaeda


 

 

 

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