Mesmo em uma época em que temas ligados à saúde e ao bem-estar feminino ganham cada vez mais espaço, questões como libido, dor durante a relação sexual e autoestima íntima continuam cercadas por silêncio, vergonha e desinformação. Para especialistas, a dificuldade em abordar esses assuntos faz com que milhares de mulheres convivam por anos com desconfortos físicos e emocionais que poderiam ser tratados.
A sexualidade feminina ainda é impactada por crenças culturais e sociais que, muitas vezes, levam as mulheres a ignorarem sinais importantes do próprio corpo. A ginecologista e obstetra Dra. Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e uma das maiores referências brasileiras em sexualidade humana, observa que muitas pacientes demoram a procurar ajuda por acreditarem que alterações no desejo sexual ou dores durante a intimidade fazem parte da rotina feminina.
A diminuição da libido, por exemplo, está entre as queixas mais frequentes nos consultórios. Embora seja comum que o desejo sexual oscile ao longo da vida, fatores como estresse, ansiedade, sobrecarga profissional, alterações hormonais, uso de medicamentos e dificuldades nos relacionamentos podem influenciar diretamente essa condição. Segundo a psiquiatra e pesquisadora canadense Dra. Rosemary Basson, reconhecida internacionalmente pelos estudos sobre sexualidade feminina, o desejo da mulher nem sempre surge de forma espontânea, sendo frequentemente influenciado por aspectos emocionais, afetivos e pelo contexto da relação.
Outro problema que permanece subnotificado é a dor durante a relação sexual. Conhecida clinicamente como dispareunia, a condição pode estar associada a diferentes causas, incluindo endometriose, vaginismo, infecções ginecológicas, alterações hormonais e ressecamento vaginal. Apesar disso, muitas mulheres continuam acreditando que sentir dor é algo normal ou inevitável.
Para a ginecologista Dra. Flávia Fairbanks, médica do Hospital Israelita Albert Einstein, essa percepção equivocada pode atrasar diagnósticos importantes e comprometer significativamente a qualidade de vida. A especialista destaca que a dor durante a relação nunca deve ser encarada como algo comum e que a investigação adequada permite identificar a origem do problema e estabelecer tratamentos cada vez mais eficazes.
Além dos aspectos físicos, os especialistas alertam para a importância da autoestima na construção de uma vida íntima saudável. Mudanças corporais decorrentes do envelhecimento, da maternidade ou de oscilações de peso, somadas à pressão estética imposta pelas redes sociais e pelos padrões de beleza, podem afetar profundamente a forma como muitas mulheres enxergam o próprio corpo.
A psicóloga e sexóloga Dra. Ana Canosa explica que a autoestima íntima vai muito além da aparência física. Segundo ela, a forma como a mulher percebe seu valor, sua feminilidade e sua relação consigo mesma exerce influência direta sobre o prazer, a autoconfiança e a qualidade dos relacionamentos.
Nos últimos anos, profissionais da área da saúde têm defendido uma abordagem mais ampla da saúde íntima feminina, considerando não apenas questões hormonais e ginecológicas, mas também fatores emocionais e psicológicos. O objetivo é romper o ciclo de silêncio que ainda impede muitas mulheres de buscar ajuda especializada.
Embora o assunto esteja ganhando mais visibilidade, especialistas acreditam que ainda há um longo caminho a percorrer para que libido, dor na relação e autoestima sejam encarados como temas naturais da saúde feminina. Falar abertamente sobre essas questões, buscar informação de qualidade e procurar acompanhamento profissional quando necessário são passos fundamentais para garantir bem-estar, autonomia e qualidade de vida em todas as fases da mulher.