Designer de Interiores
Pamela Sette tinha 17 anos quando casou. Não havia plano de carreira traçado no papel, mas havia algo que ela ainda não sabia nomear: uma forma própria de enxergar o mundo ao redor, de perceber o que falta e o que sobra num ambiente, de entender que os espaços dizem muito sobre quem os habita. Nos anos seguintes, enquanto criava três filhos e aprendia a administrar o tempo com rigor quase militar, foi também construindo uma das trajetórias mais consistentes do design de interiores brasileiro.
Hoje, aos 35 anos, assina projetos no ABC Paulista, no litoral, em São Paulo e nos Estados Unidos. Em 2025, foi reconhecida pelo Polo Design em três categorias distintas. Acabou de retornar do Salon del Mobile, em Milão, onde foi buscar não tendências, mas leitura de comportamento. Sua assinatura, construída ao longo de mais de uma década, combina sofisticação formal com uma escuta que vai além do briefing.
Nesta conversa com o Portal Pulsar Brasil, ela fala sobre os anos de dedicação silenciosa, sobre o que grandes projetos exigem de quem os lidera e sobre a crença, mantida com firmeza, de que espaços bem projetados não são sobre estética. São sobre vida.

Você se casou aos 17 anos e construiu sua carreira em paralelo à maternidade de três filhos. Como essa trajetória moldou a designer que você é hoje — e o que essa experiência ensinou sobre conciliar criação e cuidado?
Começar tão cedo me trouxe uma maturidade que não foi opcional — foi necessária. A maternidade me ensinou sobre prioridade, escuta e sensibilidade, que hoje são pilares do meu trabalho. Eu aprendi que criar não é só estética, é cuidado. Projetar um espaço, pra mim, é entender profundamente a rotina, o emocional e a história de quem vai viver ali — exatamente como fazemos dentro de casa com nossos filhos.
Muitos projetos nasceram nas madrugadas, entre fraldas e prazos. Existe algo nessa disciplina imposta pela vida que influenciou diretamente a forma como você conduz obras e entregas até hoje?
Totalmente. Eu aprendi a ser extremamente eficiente. Não existia tempo sobrando, então tudo precisava ser muito bem pensado. Hoje, isso se reflete em organização, cumprimento de prazos e tomada de decisão rápida. Eu não romantizo o caos — eu aprendi a estruturar processos dentro dele.

Você descreve seu processo criativo como uma espécie de anamnese sensível. Como funciona, na prática, essa escuta com o cliente — e em que momento você percebe que entendeu de verdade o que a pessoa precisa, além do que ela pediu?
Eu observo muito mais do que escuto. A forma como a pessoa fala, o que ela valoriza, o que ela evita… tudo comunica. A virada acontece quando o cliente começa a se surpreender com as minhas propostas e diz algo como: “Eu não sabia explicar isso, mas é exatamente isso.” Esse é o momento em que sei que fui além do briefing.
O Bler, na Avenida Brasil, foi um dos projetos mais expressivos da sua carreira — quase 2.000 m² de um salão de alto padrão. O que esse projeto exigiu de você que nenhum outro havia exigido antes?
Escala e responsabilidade em outro nível. Um projeto desse tamanho exige não só criatividade, mas gestão muito forte — de equipe, de fornecedores, de tempo e de expectativa. Foi um divisor de águas porque consolidou minha capacidade de liderar projetos grandes sem perder o olhar para o detalhe.

Você acaba de voltar do Salon del Mobile, em Milão. O que você foi buscar lá — e o que trouxe de volta que ainda não existe nos projetos que o Brasil está fazendo?
Fui buscar repertório e leitura de futuro. Mais do que tendências, eu busco entender comportamento. Voltei com uma visão muito mais sensorial dos espaços — menos excesso, mais intenção. O Brasil ainda trabalha muito com estética imediata, e eu acredito que o próximo passo está na experiência completa do ambiente.
Sua atuação vai do ABC Paulista ao litoral e a projetos nos Estados Unidos. Existe uma linguagem Pamela Sette que atravessa todos esses contextos, ou cada lugar exige uma reinvenção completa?
Existe, sim, uma identidade — que não é estética, é conceitual. Meu trabalho sempre parte da escuta profunda e da personalização. Mas cada lugar pede uma leitura própria: clima, cultura, estilo de vida. Eu não replico projetos, eu traduzo pessoas em espaços.

Em 2025, você foi premiada em três categorias pelo Polo Design. Prêmios validam, mas também criam expectativa. Como você lida com o peso de um reconhecimento desse tamanho sem deixar que ele engesse sua criatividade?
Eu vejo o prêmio como consequência, não como direção. Se eu começar a criar pensando em expectativa, eu me perco. O reconhecimento é importante, claro — mas o que me move continua sendo o processo e o resultado para o cliente. É isso que mantém minha criatividade viva.
Seus filhos cresceram dentro de obras, acompanhando visitas técnicas, convivendo com esse universo desde cedo. Algum deles demonstrou interesse em seguir esse caminho — e o que você sente quando pensa nisso?

Eles cresceram vendo de perto o que é construir algo do zero, então existe uma admiração natural. Se algum deles escolher esse caminho, eu vou apoiar — mas sem pressão. O mais importante pra mim é que eles encontrem o que faz sentido pra vida deles, assim como eu encontrei na minha.

Na última resposta, quando a conversa recai sobre os filhos, algo muda no ritmo de Pamela. Não há projeção nem pressão. Ela quer que eles encontrem o que faz sentido para as próprias vidas, como ela encontrou para a dela. Essa contenção diz muito sobre quem ela é como profissional. Uma designer que passou anos criando espaços a partir das histórias dos outros aprendeu, acima de tudo, a não impor narrativas.
Ela observa. Ela escuta. Ela traduz. E entrega, no final, algo que o cliente não sabia pedir, mas reconhece imediatamente como seu. É nesse intervalo, entre o que existe e o que ainda não tem forma, que o trabalho de Pamela Sette acontece.
Esta entrevista faz parte da Série Negócios do Portal Pulsar Brasil, um projeto editorial dedicado a brasileiros que constroem, fora do Brasil, trajetórias que vale a pena contar. Não são histórias de sorte. São histórias de escolha, método e posicionamento.
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Foto: @trumpas