A rápida evolução tecnológica na saúde, marcada pela inteligência artificial e por aplicativos de monitoramento, contrasta com a realidade enfrentada por pacientes com diabetes no Brasil. Enquanto inovações prometem precisão no controle glicêmico, a falta de acesso a dispositivos essenciais, como os sensores de monitoramento contínuo, revela um abismo social que compromete a qualidade de vida e sobrecarrega o sistema público.
A disparidade no acesso a essas tecnologias foi detalhada em uma pesquisa realizada pelo Vozes do Advocacy, que ouviu 1.411 pessoas diagnosticadas com a condição em diversas regiões do país. Os dados indicam que a desigualdade econômica atua como a principal barreira para a adoção de ferramentas que poderiam evitar complicações graves e internações recorrentes no Sistema Único de Saúde (SUS).
Barreiras financeiras e a dependência da judicialização
O levantamento aponta que apenas 40,8% dos entrevistados utilizam a tecnologia de monitoramento contínuo, enquanto 33% nunca tiveram acesso a ela. Entre aqueles que precisaram interromper o uso, 64,6% citaram o alto custo dos dispositivos como o fator determinante para a desistência.
A dependência financeira é evidente: 78,6% dos usuários atuais arcam com os custos do próprio bolso ou recorrem à judicialização para garantir o tratamento. A correlação entre renda e acesso é direta, com pessoas que ganham acima de 10 salários mínimos tendo 3,4 vezes mais chances de utilizar os sensores do que aquelas que recebem até um salário mínimo.
Impacto clínico e redução de internações pelo SUS
O uso dos sensores de glicose não representa apenas um ganho de conveniência, mas uma estratégia eficaz de redução de custos hospitalares. A pesquisa demonstra que 17,7% dos pacientes que nunca utilizaram a tecnologia foram internados por complicações relacionadas ao diabetes no último ano, contra 11,5% entre os usuários dos sensores.
A diferença nas taxas de complicações crônicas é igualmente expressiva. Enquanto usuários da tecnologia relataram índices menores de problemas microvasculares e macrovasculares, como retinopatia, doenças renais e amputações, o grupo sem acesso apresentou prevalências significativamente mais altas, evidenciando o custo humano e financeiro da falta de investimento em prevenção.
Perspectivas para a incorporação tecnológica no sistema público
O cenário atual exige uma mudança na gestão de recursos, focada na economia gerada pela prevenção. Projetos piloto, como o implementado em São Paulo para crianças de até 12 anos com diabetes tipo 1, demonstram que a administração pública começa a reconhecer a importância do monitoramento contínuo.
A expectativa agora recai sobre a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologia do SUS. O órgão deve realizar a análise final para decidir sobre a incorporação dos sensores para pacientes com diabetes tipo 1, levando em conta a necessidade de reduzir o impacto financeiro das internações e o bem-estar dos milhares de brasileiros que aguardam uma resposta definitiva sobre o acesso ao tratamento.