Em entrevista exclusiva ao Pulsar Brasil, o fundador da MFJ Treinamentos e referência nacional em desenvolvimento de pessoas apresenta a obra em que defende a capacitação como alavanca de transformação da gestão pública brasileira
Referência em treinamento e desenvolvimento de equipes, com trajetória construída dentro de grandes corporações e à frente da MFJ Treinamentos, empresa de atuação nacional que atende clientes de grande porte, Felipe Joioso chega ao mercado editorial com O Poder da Capacitação no Setor Público: Como preparar equipes, reduzir riscos e elevar o nível da gestão pública, publicado pela Editora Lux. Na obra, o empresário natural de Américo Brasiliense, no interior de São Paulo, reúne a experiência de anos formando líderes para sustentar uma tese incômoda: o Brasil só melhora quando a gestão pública aprende a se desenvolver, e isso começa por quem está no topo.
O livro não nasce de teoria, mas de campo. Antes de empreender, Joioso passou anos dentro do ambiente corporativo até perceber que o alcance do seu trabalho esbarrava nos limites do crachá. Dessa inquietação surgiu a MFJ, construída, nas palavras dele, tijolo por tijolo, e hoje consolidada como uma das operações mais respeitadas do segmento. É desse lugar de autoridade que ele escreve, e é sobre essa travessia que fala nesta entrevista exclusiva ao Pulsar Brasil: a saída do mundo corporativo, os custos de empreender com convicção e o recado direto que espera deixar com o leitor ao fim da última página.

Você nasceu em Américo Brasiliense e construiu uma carreira sólida em treinamento e desenvolvimento antes de empreender. Qual foi o momento em que percebeu que queria ir além do ambiente corporativo e criar algo próprio?
Não foi um momento único, foi uma acumulação. Eu estava dentro de grandes empresas formando equipes, desenvolvendo líderes, gerando resultado, e percebia que o impacto ficava restrito àquele perímetro. Chegou um ponto em que a pergunta deixou de ser “como faço isso melhor aqui dentro?” e virou “por que não faço isso para mais gente, do meu jeito?” O empreendimento foi consequência de uma inquietação que o cargo não conseguia mais conter.
Trabalhar com formação de equipes em grandes empresas é muito diferente de abrir um negócio. O que você encontrou de inesperado quando saiu do papel de gestor para o de fundador?
Eu sabia que ia ser diferente. Não sabia o quanto. Comecei pequeno, sem equipe, sem carteira, sem rede de segurança. A competência técnica que eu tinha como gestor não pagava boleto. A outra metade do jogo é vender, cobrar, administrar fluxo de caixa, lidar com inadimplência, montar proposta às 23h. Ninguém te prepara pra isso. Você aprende errando, e o erro sai do seu bolso. O que mudou é que hoje a MFJ é uma empresa consolidada, com operação nacional, clientes de grande porte e uma estrutura que eu construí tijolo por tijolo. O começo foi duro. O resultado fala por si.

A MFJ nasceu de uma convicção sobre acesso ao conhecimento. Na prática, o que isso significa em termos de escolhas que a empresa faz, inclusive as que custam dinheiro?
Significa que a gente já recusou cliente que queria um treinamento de fachada, aquele que existe pra cumprir requisito, não pra transformar nada. Significa que a metodologia não é negociável por preço. Significa que a gente investe em material, em preparação, em personalização, mesmo quando o contrato não paga por isso explicitamente. Às vezes é um curso que a gente entrega com margem menor porque acredita que aquele público precisa daquilo. Convicção tem custo. A questão é não deixar ela virar ingenuidade financeira, e esse equilíbrio é o exercício permanente de quem empreende com propósito.
Capacitação corporativa é um mercado com muitos players. O que diferencia a abordagem da MFJ de uma empresa que simplesmente vende horas de treinamento?
Quem vende hora entrega presença. A gente entrega mudança de comportamento, ou pelo menos é isso que nos cobramos a entregar. A diferença começa antes do treinamento: no diagnóstico, em entender o contexto daquele time, daquela cultura, daquela liderança. E continua depois: o que mudou? O que o gestor percebeu? O que o colaborador faz diferente? Treinamento sem ancoragem na realidade da empresa é entretenimento corporativo. Pode ser bom, as pessoas saem satisfeitas. A gente não quer fazer evento. Queremos fazer diferença.
Por que o setor público? É um ambiente que costuma ser visto com ceticismo quando o assunto é desenvolvimento profissional.
Porque é onde o impacto escala mais. Uma liderança bem desenvolvida dentro de uma prefeitura, de uma autarquia, de um órgão estadual afeta diretamente a vida de milhares de pessoas, seja na saúde, na educação, na segurança ou nos serviços. O setor privado já tem muita oferta de capacitação. O público ainda é tratado como mercado de segunda linha. Eu enxergo isso como oportunidade e como responsabilidade. Se a gestão pública melhora, o Brasil melhora. É simples assim, e complexo assim.

Existe uma narrativa de que servidor público não tem incentivo para se capacitar. Você concorda, discorda ou a realidade é mais complexa do que isso?
Eu discordo da generalização, e concordo que o sistema cria distorções reais. Tem servidor que quer se desenvolver e não encontra espaço nem apoio institucional. Tem gestor que bloqueia capacitação porque teme perder controle sobre quem sabe mais. Tem estabilidade sendo usada como desculpa, de fora e, às vezes, de dentro. Mas eu já vi servidores com uma sede de aprendizado que envergonha muito profissional do privado. O problema não é motivação individual. É que o ambiente muitas vezes não reconhece, não remunera e não aplica o que o servidor aprendeu. Aí o ciclo quebra antes de começar.
Qual é o maior obstáculo concreto, não o discursivo, que impede a capacitação de avançar nas instituições públicas brasileiras?
Descontinuidade de gestão é um problema real, mas por trás dela tem um problema maior: prefeitos e secretários que não acreditam de verdade no poder da capacitação. Quando a liderança não se desenvolve, não valoriza desenvolvimento. E o servidor sente isso. Não adianta mandar o time para o treinamento, se quem deveria dar o exemplo chega no cargo sem preparo para gerir pessoas, processos e políticas públicas. A capacitação precisa começar por cima, e os gestores públicos precisam entender que mandato não substitui formação. Quanto mais complexo o ambiente, mais preparado precisa ser quem lidera.

O que você espera que o leitor faça diferente depois de fechar o livro?
Que ele pare de tratar capacitação como despesa e comece a tratar como investimento estratégico, e que saiba cobrar resultado disso. Que o gestor público olhe para o time e se pergunte: o que eu fiz para desenvolver essas pessoas esse ano? Que o servidor pergunte: o que aprendi que eu apliquei de verdade? Não quero que o leitor saia inspirado. Quero que saia incomodado o suficiente para agir.
Mais do que registrar uma trajetória, O Poder da Capacitação no Setor Público condensa a tese que Felipe Joioso vem defendendo há anos dentro e fora das organizações: desenvolver pessoas não é gasto, é a decisão mais estratégica que um gestor pode tomar, sobretudo na esfera pública, onde cada liderança bem preparada reverbera na vida de milhares de brasileiros. Publicada pela Editora Lux, a obra chega ao mercado com a assinatura de quem construiu autoridade na prática e com uma provocação que atravessa cada página: se o incômodo é o primeiro passo da mudança, a leitura cumpre exatamente o que promete.
Foto: Kauã Tiezzi