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Homens e médicos: por que a resistência ainda mata mais do que a doença

Foto/ Reprodução: Internet

Existe um padrão que se repete nos consultórios médicos do Brasil inteiro. A consulta é marcada pela esposa, pela mãe ou pela filha. O homem chega, em geral, quando o sintoma já não dá mais para ignorar. Quando a dor está forte demais, quando o sangramento apareceu, quando a perda de peso ficou evidente para todo mundo menos para ele. Na maior parte dos casos, o diagnóstico que vem depois poderia ter sido feito meses ou anos antes.

O Brasil tem um problema crônico com a saúde masculina e ele não está nos hospitais. Está na cultura que ensina homens a não reclamar, a não parar, a não demonstrar vulnerabilidade nem diante do próprio corpo. Cuidar da saúde, nesse código, foi por muito tempo lido como fraqueza. O resultado aparece nas estatísticas: homens morrem em média sete anos antes que mulheres no país, têm maior incidência de doenças cardiovasculares, são diagnosticados em estágios mais avançados de câncer e procuram serviços de atenção primária com frequência significativamente menor.

O câncer de próstata é o exemplo mais citado, mas não é o único. É o segundo tipo mais comum entre homens no Brasil, com mais de 70 mil novos casos estimados por ano. Quando detectado nos estágios iniciais, a taxa de sobrevivência em cinco anos se aproxima de 100%. Quando o diagnóstico chega tardio, esse número cai de forma expressiva. A diferença entre um resultado e outro, na maior parte dos casos, é simplesmente ter ido ao médico.

O mesmo vale para hipertensão, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares, condições que se instalam de forma silenciosa, sem sintomas evidentes por anos, e que respondem muito bem ao tratamento quando identificadas cedo. Homens têm menor adesão ao acompanhamento de condições crônicas, interrompem tratamentos com mais frequência e subestimam sintomas com mais consistência do que mulheres. Isso não é dado de opinião. É o que mostram as pesquisas de comportamento em saúde repetidamente.

Há fatores estruturais nessa equação que não podem ser ignorados. O horário de funcionamento das unidades de saúde muitas vezes não se encaixa na jornada de trabalho. O sistema foi historicamente organizado em torno da saúde da mulher e da criança, com menos espaço pensado para o homem adulto. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, criada em 2009, tentou endereçar parte disso, mas sua implementação ainda é desigual entre estados e municípios.

Mas há também o que não se resolve com política pública sem mudar o que acontece antes da porta do serviço de saúde. A resistência masculina à consulta médica começa na infância, na forma como meninos aprendem a lidar com dor, com fragilidade e com a própria necessidade de cuidado. Homens que crescem ouvindo que não precisam de médico tendem a se tornar adultos que só procuram atendimento em situação de emergência.

O que os dados sugerem é que campanhas de conscientização com abordagem direta, linguagem sem paternalismo e espaços de escuta que não infantilizem o homem funcionam melhor do que alertas genéricos sobre prevenção. Homens respondem a informação concreta, a números, a consequências reais. Não a culpa.

A resistência ainda mata mais do que a doença em muitos casos. Mas ela não é inevitável. É aprendida. E o que se aprende pode ser revisto.

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