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O que acontece com o cérebro de quem nunca dorme o suficiente

Foto/ Reprodução: Internet

Seis horas de sono por noite parece razoável. Para muita gente, parece até generoso diante da rotina real. Mas o que a neurociência acumulou nas últimas duas décadas sobre esse hábito não deixa muito espaço para negociação: dormir cronicamente menos do que o necessário não é apenas cansaço que se resolve no fim de semana. É um processo de deterioração silenciosa que afeta estrutura, função e, com o tempo, a própria arquitetura do cérebro.

O sono não é pausa. É trabalho. Durante a noite, o cérebro ativa um sistema de limpeza chamado glinfático, que remove resíduos metabólicos acumulados ao longo do dia, entre eles a proteína beta-amiloide, associada ao desenvolvimento do Alzheimer. Esse processo depende de ciclos completos de sono profundo para funcionar. Quando esses ciclos são interrompidos ou insuficientes, os resíduos se acumulam. Não de forma dramática e imediata, mas de forma consistente, noite após noite, ano após ano.

Os efeitos de curto prazo são os mais conhecidos: dificuldade de concentração, irritabilidade, lapsos de memória, menor capacidade de tomar decisões. O que menos se fala são os efeitos de médio e longo prazo. Estudos com ressonância magnética mostram que adultos que dormem regularmente menos de seis horas apresentam redução de volume em áreas do cérebro ligadas à memória e à regulação emocional, especialmente o hipocampo. Essa redução não se recupera completamente com uma boa noite de sono eventual.

O cortisol, hormônio do estresse, sobe quando o sono é insuficiente e permanece elevado durante o dia seguinte. Com o tempo, níveis cronicamente altos de cortisol comprometem a plasticidade neuronal, ou seja, a capacidade do cérebro de formar novas conexões e adaptar circuitos existentes. É esse mecanismo que explica por que pessoas com privação crônica de sono aprendem com mais dificuldade, retêm menos informação e respondem pior a situações de pressão.

Há ainda o impacto sobre a saúde mental. A relação entre sono insuficiente e transtornos como depressão e ansiedade é bidirecional: a privação de sono aumenta o risco de desenvolver esses transtornos, e os transtornos comprometem a qualidade do sono. Romper esse ciclo sem endereçar ambos os lados costuma não funcionar.

A recomendação de sete a nove horas por noite para adultos não é conservadorismo médico. É o intervalo dentro do qual o cérebro consegue completar os ciclos necessários para consolidar memórias, regular emoções, limpar resíduos e se preparar para o dia seguinte. Abaixo disso, o sistema funciona, mas funciona com déficit. E déficits que se repetem todos os dias por anos não são neutros.

O problema é que a privação crônica de sono embota a própria percepção do quanto se está comprometido. Quem dorme pouco por tempo suficiente deixa de sentir sono como algo agudo e passa a considerar aquele estado de funcionamento reduzido como normal. O cérebro se adapta à degradação sem sinalizar que está degradado.

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