Desenvolver um remédio do zero leva, em média, mais de dez anos. O custo pode superar 2 bilhões de dólares. E de cada dez candidatos que entram no processo, apenas um chega ao paciente. É esse modelo que a Novo Nordisk quer mudar — e a aposta para isso é a OpenAI.
A farmacêutica dinamarquesa anunciou na terça-feira, 14, uma aliança estratégica com a empresa criadora do ChatGPT para integrar inteligência artificial em toda a sua operação, da bancada de pesquisa às linhas de fabricação, passando pela logística, distribuição e atividades comerciais. A integração completa está prevista para o final de 2026, com programas-piloto já em curso nas áreas de pesquisa e desenvolvimento, manufatura e operações comerciais.
A proposta central é usar a tecnologia da OpenAI para analisar volumes de dados que antes eram inviáveis de processar, identificar candidatos promissores a novos medicamentos com mais velocidade e testar hipóteses científicas num ritmo que os métodos tradicionais não permitem. “A integração da IA ao nosso trabalho diário nos permite analisar conjuntos de dados em uma escala até agora impossível, identificar tendências que antes não conseguíamos ver e testar hipóteses de modo mais rápido do que nunca”, afirmou o CEO da Novo Nordisk, Mike Doustdar.
Doustdar foi enfático sobre o impacto na força de trabalho: a parceria não tem como objetivo reduzir o número atual de funcionários, mas aumentar a produtividade e conter o ritmo de contratações futuras. A OpenAI também vai treinar a equipe global da farmacêutica em inteligência artificial, disseminando o conhecimento por todos os departamentos. “O objetivo aqui não é substituir nossos cientistas. É potencializá-los”, disse.
O anúncio chega num momento de pressão competitiva intensa para a Novo Nordisk. A empresa, que transformou o mercado global com Ozempic e Wegovy, viu sua rival americana Eli Lilly avançar no mesmo território dos tratamentos para obesidade e diabetes. No início de abril, o FDA aprovou o Fundayo, segundo comprimido de GLP-1 da Eli Lilly para perda de peso, reforçando a disputa. Ganhar velocidade na inovação, nesse contexto, não é detalhe operacional: é vantagem competitiva direta.
Os termos financeiros do acordo não foram divulgados.
A Novo Nordisk não é pioneira nesse movimento. Outras grandes farmacêuticas vêm firmando acordos semelhantes com empresas de tecnologia, numa tendência que aponta para uma reconfiguração do modelo de pesquisa e desenvolvimento do setor. O que diferencia esse anúncio é a escala pretendida: não se trata de usar IA numa etapa específica do processo, mas de atravessar toda a cadeia, da molécula à prateleira da farmácia, com a tecnologia integrada em cada decisão.
Se o que foi prometido se confirmar na prática, o impacto vai além dos números da Novo Nordisk. Reduzir o tempo e o custo de desenvolvimento de medicamentos é uma das maiores pressões não resolvidas da indústria farmacêutica global, e qualquer avanço real nessa direção interessa a todos que dependem de novos tratamentos.