O conceito de saúde única, que estabelece uma conexão intrínseca entre o bem-estar humano, animal e ambiental, tem ganhado relevância central na ciência contemporânea. Essa abordagem integrada é considerada fundamental para a prevenção de pandemias e o controle de surtos infecciosos, especialmente diante do aumento de zoonoses, doenças transmitidas de animais para seres humanos, como a covid-19 e a dengue.
Com o avanço das mudanças climáticas e o impacto do desmatamento, o risco de transmissão de patógenos cresceu significativamente. Diante desse cenário, a análise das propostas dos candidatos à presidência revela um hiato entre a necessidade de vigilância epidemiológica robusta e a efetiva estruturação de políticas públicas voltadas para essa integração.
Ausência de diretrizes concretas nos planos de governo
A virologista Helena Lage Ferreira, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, avalia que, embora o Brasil possua uma biodiversidade vasta e uma agropecuária expressiva, o tema é pouco explorado pelos postulantes ao cargo. De 12 candidatos analisados, apenas 4 apresentam menções específicas à saúde única.
A especialista aponta que falta detalhamento sobre governança, financiamento e indicadores de desempenho. Para que a saúde única saia do campo teórico, é necessário estabelecer mecanismos de cooperação entre as pastas da saúde, agricultura, meio ambiente e ciência, garantindo que a vigilância seja, de fato, coordenada e intersetorial.
Propostas de vigilância e monitoramento sanitário
Entre os candidatos, Wilson Grassi destaca-se por dedicar um eixo específico à saúde única, propondo a criação de uma rede nacional de laboratórios de diagnóstico veterinário e a inclusão de profissionais da área no serviço público. A virologista ressalta, contudo, que a eficácia dessas medidas depende da interoperabilidade entre sistemas que, atualmente, operam de forma fragmentada.
Outros nomes, como Ronaldo Caiado, sugerem a modernização da defesa sanitária com o uso de inteligência artificial para monitoramento em tempo real. Já Lula enfatiza a rastreabilidade de rebanhos, enquanto Flávio Bolsonaro propõe a unificação de dados de trânsito animal e uso do solo, embora sem detalhar como essas informações seriam integradas à vigilância epidemiológica.
Assistência veterinária e bem-estar animal
O cuidado com animais domésticos também integra o debate, com propostas voltadas ao atendimento veterinário para famílias de baixa renda e o aprimoramento de cadastros nacionais. A implementação de políticas como o SinPatinhas visa o controle populacional e a responsabilização de tutores, mas especialistas alertam que tais medidas devem ser acompanhadas de ações educativas e estruturais.
A integração desses animais ao sistema de saúde pública, quando bem articulada, pode reduzir a incidência de doenças e fortalecer a barreira contra a resistência antimicrobiana. O desafio para o próximo governo, segundo a análise, será transformar essas intenções em estratégias operacionais que conectem a proteção animal à segurança sanitária da população brasileira. Para mais detalhes sobre a importância da ciência nas eleições, consulte o projeto Ciência e Saúde nas Eleições.