O Keytruda gerou mais de 163 bilhões de dólares desde que chegou ao mercado, em 2014. É o medicamento mais vendido do mundo. Aprovado para tratar ao menos 19 tipos de câncer, ele age de uma forma que a oncologia nunca havia visto antes: em vez de atacar o tumor diretamente, instrui o próprio sistema imunológico do paciente a reconhecer e destruir as células cancerosas. Para milhões de pessoas, esse mecanismo transformou diagnósticos antes fatais em doenças controláveis.
O problema é que o acesso a esse tratamento depende menos da doença do paciente do que do país onde ele mora, do plano de saúde que tem ou da disposição de entrar na Justiça.
Uma investigação publicada esta semana pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, o ICIJ, em parceria com 47 veículos de todo o mundo, revelou como a farmacêutica americana Merck Sharp & Dohme, a MSD, usa uma combinação de estratégias de patentes, preços e lobbying para controlar quem acessa o pembrolizumabe, nome genérico do Keytruda, e por quanto tempo isso continuará sendo exclusividade da empresa. A investigação se chama Cancer Calculus.
Os números expõem a desigualdade com precisão. Um único frasco de 100 mg do medicamento custa cerca de 850 dólares na Indonésia e ultrapassa 6 mil dólares nos Estados Unidos. No Brasil, o valor chega a mais de 20 mil reais por dose. Como o tratamento ocorre em ciclos, o custo anual pode ultrapassar centenas de milhares de reais para um único paciente.
Para segurar essa posição por mais tempo, a MSD construiu o que o ICIJ chama de fortaleza de patentes: ao menos 1.212 pedidos de patente em 53 jurisdições ao redor do mundo, cobrindo não apenas o medicamento em si, mas variações de dosagem, formulações e processos de fabricação. O efeito prático é que a concorrência pode ser travada por até 14 anos além do vencimento das patentes originais.
No Brasil, a consequência mais visível desse cenário é a judicialização. O país é o líder mundial em ações judiciais pedindo acesso ao Keytruda, um abismo em relação a outros países: enquanto o ICIJ identificou 17 processos na Califórnia e 6 no Texas, no Brasil as ações somam milhares. Fernando Aith, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista no tema, afirma que o Brasil judicializa a saúde de longe mais do que qualquer outro país no mundo, inclusive os que têm sistemas públicos semelhantes.
Isso significa, na prática, que o acesso ao tratamento depende de quem tem condições de contratar um advogado e de quanto tempo o paciente ainda tem para esperar uma decisão judicial. Enquanto processos se arrastam por anos, alguns pacientes morrem aguardando.
Do lado do poder público, o governo federal tentou abrir uma brecha diferente. Em março de 2026, o Ministério da Saúde anunciou uma parceria entre o Instituto Butantan, a MSD e a União para produzir o pembrolizumabe no Brasil, por meio do modelo de Parceria para o Desenvolvimento Produtivo. A proposta prevê transferência de tecnologia da farmacêutica para o laboratório público e promete ampliar o acesso no SUS, atualmente restrito a casos específicos como o melanoma avançado. A expectativa é estender o uso a cânceres de pulmão, mama, esôfago e colo do útero conforme novas indicações forem avaliadas.
A redução de preço prometida pela iniciativa é de cerca de 10% em relação ao medicamento originador, pelo menos no início. Um alívio modesto diante de um custo que permanece proibitivo para a maior parte da população.
O que a investigação do ICIJ deixa claro é que o problema não é a ciência por trás do Keytruda. O medicamento funciona. O problema é o modelo que decide quem chega até ele.